DOM QUIXOTE

DOM QUIXOTE
De Assis Costa - artista potiguar

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

PEDAÇOS DO MEU LIVRO

SER PSICÓLOGO NÃO É FÁCIL...QUEM OUVE HISTÓRIAS E ESTÓRIAS HÁ 25 ANOS, ÁS VEZES NEM TEM TEMPO DE VIVER.ÁS VEZES VIVE ATRAVÉS DO OUTRO, ESPELHO DE NOSSA PRÓPRIA ALMA.PRA NÃO PIRAR, ESCREVO.
SÃO "HISTÓRIAS DE QUEM GOSTA DE OUVIR", UM DIA AINDA VIRA LIVRO!
ESTOU EM LICENÇA MÉDICA HÁ 15 DIAS, DEPOIS DE UMA QUEDA FEIA E A INTERNET TEM SIDO MINHA ÚNICA ATIVIDADE.
POSTO HOJE ENTÃO UMA CRÔNICA QUE TEM TUDO A HAVER.

desamor@internet.com.br

Á amiga recém-conquistada, contou em manhã de abril que divorciara-se por falta de libido.
O marido, funcionário federal, sempre lhe dera de tudo, menos adrenalina.
Perderam a juventude digladiando-se longe dos filhos até ele começar a beber.
Sabia-se insincera, ele também.Odiava suas cobranças, por isso fingia orgasmos - e ele fingia acreditar.
A filha denunciava sua perda de viço com peculiar maldade adolescente e nem assim tinha coragem de recomeçar: acomodava-se á gordura e ao sexo anêmico e sem prazer.
Aos 40, por puro enfado, quis fazer um curso de massagem estética.
O marido enciumou-se: pois não teria clientes homens? Não, mas gostou da novidade e teimou no curso.A primeira aula prática mudou sua vida: viu, em febre, o professor gay tocar com tamanha solenidade e delicadeza as costas de uma cliente-cobaia que quase desmaiou.
A simples possibilidade de tocar um centímetro de pele humana sem os rituais a que estava habituada aterrorizou-a a ponto de adoecer.Sede de vida.
Viveu meses num fascínio doido, sonhos estranhos que se interrompiam com gritos na madrugada.
Danou-se a ver filmes escondido até que o marido comprou-lhe um computador como incentivo a uma possível volta aos estudos de segundo grau.
Se nunca fora boa dona-de-casa, aí é que desinteressou-se de tudo mesmo.
Alcoólatra a seco, bebia agora INTERNET.
E comia.
Alucinada por fantasias e explodindo de solidão, devorava todos os biscoitos da casa a bordo do Pentium turbinado.
Disputava aos sopapos a posse do mouse com o filho de14 anos.
O marido - que a esta altura bebia mais e arranjara uma amante - implorava, por pura solidariedade humana, que voltasse ao mundo dos vivos.Em vão.
Acabou por separar-se dela deixando-lhe tudo, inclusive os filhos. Estes, preocupados, telefonavam diariamente relatando a loucura da mãe, que falava sozinha e se comunicava com estranhos pela Internet o dia todo.
Nunca mais saiu de casa, até as compras ficaram por conta deles.
Na formatura da filha encontraram-se no jantar onde finalmente brigaram por pequenas e antigas bobagens. Em acesso de raiva confessou, rancorosa: “Nunca senti desejo por você”, jogou-lhe na cara. - ”Só agora sou feliz”.
Voltou para casa pisando torto nos saltos aos quais não se acostumava, entrou no escritório como uma rainha vitoriosa e lá morreu de overdose de vida.
Foi encontrada no dia seguinte pelos filhos totalmente morta e ensanguentada.
Cortara os pulsos com a taça de champanhe quebrada.No computador.
ROSE

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