DOM QUIXOTE

DOM QUIXOTE
De Assis Costa - artista potiguar

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

OUTRA HISTÓRIA...PRA PENSAR NA LEI DO ATO MÉDICO

CORAÇÃO NEGRO



Nunca acreditei no capeta.
Naquele dia, vi nosso colega do plantão chegar agitado.
Homem culto, estudado, procurava sempre fazer seu trabalho da melhor forma possível.
É bem verdade que tinha ás vezes surtos incontroláveis de ira, mas já fechara seu próprio diagnóstico: BIPOLAR.
Talvez por isso mantivesse quatro empregos em cidades diferentes, arriscando a vida na estrada todos os dias.
Já estávamos habituados á montanha-russa de seu humor, visto não haver outro jeito; nem o chefe conseguia afastá-lo.
Tinha bom relacionamento com políticos e fama de ser bom clínico.
Ninguém lhe era indiferente: seus pacientes o odiavam ou idolatravam-no.
Os colegas não-médicos temiam-no pois nunca perdia chance de gritar .
Suas ex-mulheres contavam estórias estranhas.
Aos seus pares, jamais admitia erros: pois que então queriam ensinar o padre-nosso ao vigário?
Orgulhava-se das vidas que salvara ao longo da carreira.
No café, perdia-se em detalhes técnicos que não compreendíamos, contando “daquela” traqueostomia na senhora do Ferradura Mirim; ou da vez em que...
O café esfriava em cima da mesa até a sirene da próxima ambulância fazê-lo sair como doido pelo corredor.
Naquele dia não foi assim.
Chegou taciturno, mãos suando, camisa desalinhada.
Parecia abstinente das drogas costumeiras que o faziam dormir nas 2 horas de repouso permitidas e das outras que o mantinham alerta durante o plantão.
Fechou-se no quarto de conforto médico.
O colega assumiu sem muitas perguntas.
Parecia daqueles dias em que o calor é tanto que o ar pesa em prenúncio de tempestade: sente-se o seu cheiro mesmo com o céu limpo e o sol escaldante.
Eu sentia que algo estava para acontecer sem saber o que.
Como num filme já assistido, ouví a sirene da ambulância e corri para ajudar.
A Kombi vomitou de suas entranhas o velho Raul: bêbado contumaz,era freguês do Pronto-Socorro dia-sim-dia-não e vítima predileta de meu colega, pois lembrava-lhe o próprio pai alcoólatra.
Afinal, tornara-se médico na inútil esperança de curá-lo.
Como morrera vomitando o próprio fígado, meu colega esperava então puni-lo - simbolicamente - através de todos os pobres diabos que lhe apareciam á frente.
Senti um frio na espinha: sabia que não era um bom dia para Raul.
Entrou xingando a enfermeira tão alto que arrancou seu algoz do esconderijo.
“- Deixa comigo”.O médico saiu do conforto como para uma batalha.
Todos afastaram-se para não presenciar o suplício de Raul - disfarçado de lavagem estomacal, aplicação de medicamentos desnecessários e o inútil sermão de duas horas que nosso colega lhe pregava como o lamento do menino que um dia foi.
Seus olhos neste dia pareciam duas contas avermelhadas, tamanha a raiva pelo mendigo.
Raul, ao vê-lo, arregalou os olhos e a bocarra sem dentes de forma inusitada.
Parecia preso em espanto, engasgado mais com o próprio medo que com a cachaça.
Pulava feito frango destroncado e não havia quem ou o que o segurasse á maca, irritando mais ainda ao doutor.
Em um monólogo de doido, atado á cama, balbuciava coisas desconexas em mau português: Vem " - pra mim e deixe-o em paz! Sai, capeta, deixe-o em paz!”
Olhava como que através do médico, nem o Haldol fazia efeito.
Meu colega mandou dobrar a prescrição, com raiva do infeliz.
Quando rompeu as amarras e atracou-se com meu colega, tivemos a nítida impressão de que não queria feri-lo, mas abraçá-lo.
“Me matas e eu te salvo, filho do cão! Não acredita, não acredita? É o capeta e você não acredita!Eu te livrei do caminhão na estrada e você não acredita?”
Em fúria, foi jogado ao chão.
Morreu ali mesmo, convulsionando.
Meia hora depois meu colega teve uma crise nervosa e vomitou as tripas.
Disse a quem quisesse ouvir, chorando, que acabara de escapar de um terrível acidente na estrada vindo para o trabalho: um caminhão sem freios quase o esmagou.
Foi sua última crise.
Hoje é espírita e melhorou muito... ROSE

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