CORAÇÃO NEGRO
Nunca acreditei no capeta.
Naquele dia, vi nosso colega do plantão chegar agitado.
Homem culto, estudado, procurava sempre fazer seu trabalho da melhor forma possível.
É bem verdade que tinha ás vezes surtos incontroláveis de ira, mas já fechara seu próprio diagnóstico: BIPOLAR.
Talvez por isso mantivesse quatro empregos em cidades diferentes, arriscando a vida na estrada todos os dias.
Já estávamos habituados á montanha-russa de seu humor, visto não haver outro jeito; nem o chefe conseguia afastá-lo.
Tinha bom relacionamento com políticos e fama de ser bom clínico.
Ninguém lhe era indiferente: seus pacientes o odiavam ou idolatravam-no.
Os colegas não-médicos temiam-no pois nunca perdia chance de gritar .
Suas ex-mulheres contavam estórias estranhas.
Aos seus pares, jamais admitia erros: pois que então queriam ensinar o padre-nosso ao vigário?
Orgulhava-se das vidas que salvara ao longo da carreira.
No café, perdia-se em detalhes técnicos que não compreendíamos, contando “daquela” traqueostomia na senhora do Ferradura Mirim; ou da vez em que...
O café esfriava em cima da mesa até a sirene da próxima ambulância fazê-lo sair como doido pelo corredor.
Naquele dia não foi assim.
Chegou taciturno, mãos suando, camisa desalinhada.
Parecia abstinente das drogas costumeiras que o faziam dormir nas 2 horas de repouso permitidas e das outras que o mantinham alerta durante o plantão.
Fechou-se no quarto de conforto médico.
O colega assumiu sem muitas perguntas.
Parecia daqueles dias em que o calor é tanto que o ar pesa em prenúncio de tempestade: sente-se o seu cheiro mesmo com o céu limpo e o sol escaldante.
Eu sentia que algo estava para acontecer sem saber o que.
Como num filme já assistido, ouví a sirene da ambulância e corri para ajudar.
A Kombi vomitou de suas entranhas o velho Raul: bêbado contumaz,era freguês do Pronto-Socorro dia-sim-dia-não e vítima predileta de meu colega, pois lembrava-lhe o próprio pai alcoólatra.
Afinal, tornara-se médico na inútil esperança de curá-lo.
Como morrera vomitando o próprio fígado, meu colega esperava então puni-lo - simbolicamente - através de todos os pobres diabos que lhe apareciam á frente.
Senti um frio na espinha: sabia que não era um bom dia para Raul.
Entrou xingando a enfermeira tão alto que arrancou seu algoz do esconderijo.
“- Deixa comigo”.O médico saiu do conforto como para uma batalha.
Todos afastaram-se para não presenciar o suplício de Raul - disfarçado de lavagem estomacal, aplicação de medicamentos desnecessários e o inútil sermão de duas horas que nosso colega lhe pregava como o lamento do menino que um dia foi.
Seus olhos neste dia pareciam duas contas avermelhadas, tamanha a raiva pelo mendigo.
Raul, ao vê-lo, arregalou os olhos e a bocarra sem dentes de forma inusitada.
Parecia preso em espanto, engasgado mais com o próprio medo que com a cachaça.
Pulava feito frango destroncado e não havia quem ou o que o segurasse á maca, irritando mais ainda ao doutor.
Em um monólogo de doido, atado á cama, balbuciava coisas desconexas em mau português: Vem " - pra mim e deixe-o em paz! Sai, capeta, deixe-o em paz!”
Olhava como que através do médico, nem o Haldol fazia efeito.
Meu colega mandou dobrar a prescrição, com raiva do infeliz.
Quando rompeu as amarras e atracou-se com meu colega, tivemos a nítida impressão de que não queria feri-lo, mas abraçá-lo.
“Me matas e eu te salvo, filho do cão! Não acredita, não acredita? É o capeta e você não acredita!Eu te livrei do caminhão na estrada e você não acredita?”
Em fúria, foi jogado ao chão.
Morreu ali mesmo, convulsionando.
Meia hora depois meu colega teve uma crise nervosa e vomitou as tripas.
Disse a quem quisesse ouvir, chorando, que acabara de escapar de um terrível acidente na estrada vindo para o trabalho: um caminhão sem freios quase o esmagou.
Foi sua última crise.
Hoje é espírita e melhorou muito... ROSE
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
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