DOM QUIXOTE

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De Assis Costa - artista potiguar

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O FIM DOS MANICOMIOS - POR NÁDIA MILETO
O FIM DOS MANICÔMIOS É UMA LUTA CONSTANTE....
A algum tempo fui assistir o lançamento de uma nova droga, prima da fluoxetina, com a única melhoria de que reduzia a desagradável sensação de boca seca. A apresentação da novidade foi feita por um daqueles representantes de laboratório, muito bem falante, o qual parecia ter engolido um cd com todas as informações sobre tudo daquele tema. O cidadão em determinado momento disparou que a reforma psiquiátrica só teria sido possível devido à qualidade das medicações que existem no mercado, que até permitiam que um doente mental pudesse conviver com a sociedade. O tal papagaio tele-guiado nada sabia sobre movimento de reforma sanitária, psiquiátrica, etc...e nem queria saber.
Nestes vinte e poucos anos desde Bauru em 1987, os trabalhadores se articularam, chamaram usuários, familiares, militantes dos direitos humanos e fizeram uma revolução neste país que culminou com a abertura democrática, a nova Constituição Federal, o SUS, a Reforma Psiquiátrica e a construção de uma política de saúde e saúde mental pública das mais fantásticas do planeta, porém não conseguiu combater os manicômios.
Os hospícios de concreto estão lá, melhorados, atualizados e ainda 38% dos recursos públicos federais para a saúde mental vão para eles. Alguns diriam para comemorarmos porque já foi pior. Estes lugares que nossos olhos percebem, a sociedade tem feito esforço através de lutas permanentes para exterminá-los porque excluem, mas o que nos ocupa são os manicômios subjetivos. Estes terão fim um dia?
Nos nove anos de vácuo sem novas conferências de saúde mental, período que ficamos sem discutir mais amplamente nossas práticas nos enfraqueceram enquanto movimentos sociais, não tivemos capacidade e não sei se muitos de nós tiveram desejo de formar sucessores, mais parceiros para essa luta da cidadania. O resultado disso é um estado de torpor e letargia que nos assola enquanto militantes, que não deixa de pensar no hospício como uma alternativa para tratar os craqueteiros que ficam muito violentos e outras situações que os municípios não conseguem dar contas. .
O crack trouxe consigo uma proposital idéia de epidemia e logo a mídia dominante convenceu que era preciso trancar para tratar.
O governo do Rio Grande do Sul tem bancado financeiramente leitos fechados em hospitais públicos, nega a lei 10216 e fecha os olhos para as práticas manicomiais, que não permitem o acesso de familiares e nem de profissionais dos caps dentro destas unidades intensivas, ou seja, é o manicômio ressurgindo com forças em pleno século XXI.
Ainda não se conseguiu mudar o modelo médico-hegemônico de cuidado e já vem novamente o manicômio dizer que é necessário, ou melhor, fundamental para o equilíbrio da sociedade.
Afora as questões ideológicas, sabemos que o capitalismo que domina ainda o planeta tem sido gerador de exclusão e de abandono social. Que uma das conseqüências disso é a fuga para algo que ajude a sustentar alguma esperança e blá, blá blá, papo de intelectuais, alguém se apressaria em dizer. Mas é fato, a vida está muito insuportável para muitos cidadãos, descontando-se os que possuem problemas de conduta e de nada se beneficiariam de fazer essa avaliação, a busca em preencher o vazio existencial culmina com a necessidade desenfreada de consumo, do uso das drogas e no caso que aqui discutimos, a manutenção de estruturas e paradigmas que a muito deveriam estar superados.
Nas conferências municipais e estaduais que tive notícias pouco se avançou a respeito do papel das medicações psiquiátricas, sobre a real necessidade delas e sobre o conhecimento amplo que a lei diz que o usuário deve ter sobre seu tratamento. Alguém pode dizer que já está na lei, mas é preciso estar na vida cotidiana e não está ainda.
O cotidianos da maioria dos caps deste pais é parecido. O doutor faz a prescrição, renova receita e o usuário e seus familiares não entendem nem perguntam porque é preciso tanta medicação. Se for pouca sempre há reclamação. Se o médico não prescrever, deixa de ser bom profissional, pois como é que o cidadão com sofrimento psíquico vai ficar sem usar nada. A idéia da medicalização permanece intacta. O remédio é a pílula milagrosa que ajuda a enfrentar a dura realidade do desemprego, os tantos ônibus lotados, o aluguem caro, a falta de condições de vida digna, etc
O remédio para o doente mental ainda está no centro do tratamento. Na grande maioria das vezes o usuário não sabe o que toma e porque toma, quando reluta é porque está cansado, sem esperanças de melhorar ou tem medo de enlouquecer de novo. Daí não discute, não questiona o doutor, não se sente com capacidade para entender porque precisa tomar aquela dose daquele remédio e o que pode vir a acontecer se não tomar, se tomar menos, se tomar mais... A rotina da maioria dos caps deste pais ainda é assim, filas imensas para agendar consultas médicas, psiquiatras se valorizando, usuários brigando porque querem a receita e querem o remédio.
O esforço militante dos lugares que prestam atendimento especializado ambulatorial e até mesmo na rede básica onde mesmo havendo menor compreensão sobre a reforma psiquiátrica, encontra-se maior acolhimento e participação no cotidiano dos portadores de sofrimento psíquico, é de que há a necessidade de maior empoderamento do usuário acerca do seu tratamento, para que compreendendo os porquês da necessidade de alguns medicamentos, possa colocá-los como algo importante em sua estabilidade emocional, mas jamais central como ainda o é hoje.
Sabemos que este é um dos grandes desafios de todos os militantes da saúde mental deste país, porque temos que colocar a vida e a pessoa com toda a sua individualidade e complexidade no centro, mas para isso é fundamental que cada um possa ir assumindo seu papel nesta caminhada para acelerar esta mudança que é cultural mas é principalmente em defesa da dignidade humana e da vida.

Nadia Mileto-

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