Nasci e resido atualmente no Rio Grande do Sul. Sou descendente de imigrantes italianos que vieram da europa na época da primeira guerra mundial pois já não tinham mais condições de trabalho e renda na sua terra natal pelo contexto político instalado e que a história relata com propriedade. Minha mãe foi costureira e meu pai foi pedreiro, portanto aprendi desde pequena o valor do trabalho na nossa vida. Lutei muito para me tornar psicóloga. Primeiro iniciei estudo de pedagogia em Alegrete-RS, após fui convidada pela minha irmã mais velha para morar e estudar em Juiz de Fora-MG onde eu poderia estudar psicologia e ajudá-la a cuidar das filhas gêmeas ainda bebês - aceitei na hora e vi ali minha chance de formar na profisão que sonhava.
Em Juiz de Fora conheci Paulo Delgado, professor do Cursinho Pré-Vestibular "Universitário", que depois ajudei a eleger Deputado Federal e que apresentou o Projeto de Lei da Reforma Psiquiátrica. Conheci também o Pedro Gabriel, irmão do Paulo Delgado, ambos eram de Juiz de Fora. Pedro Gabriel era um dos grandes participantes da reforma sanitária brasileira e em consequencia, também da reforma psiquiátrica. Médico psiquiatra, tinha clareza pela sua história de vida e de atuação que o louco tinha o direito de ser cidadão. Minha faculdade, o CES-JF (Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora-MG) deve ter sido um dos primeiros locais onde o Deputado Federal Paulo Delgado-PT escolheu para apresentar publicamente seu Projeto da Reforma Psiquiátrica, o que muito nos orgulhava enquanto estudantes que viviam ainda na prática, a dura realidade do hospício.
Fiz uma parte do meu estágio num hospital psiquiátrico da cidade onde em que as condições de vida eram absolutamente degradantes. Tínhamos um professor psiquiatra que fazia questão de dizer que lá não era lugar de psicólogos. Respondíamos para ele que entendíamos que não deveria ser lugar para ninguém e que nosso compromisso seria com as pessoas em situação de sofrimento sem precisar trancá-las.
Após formar em Psicologia em junho/1990, continuei meu trabalho em uma siderúrgica com a esperança de que trabalhar na gestão de pessoas pudesse me dar condições de desenvolver meu trabalho como psicóloga de forma mais inclusiva. Veio o plano Collor e devastou o emprego de milhares de trabalhadores neste pais, dentre eles o meu emprego. Trabalhei um período junto com meus familiares e depois decidi lutar para trabalhar no que gosto - a psicologia.
Vim para a cidade de Alegrete em abril de 1995, quando consegui emprego numa cooperativa de produtores local. Tinha conhecimentos sobre a tal qualidade total, mas aprendi a colocar a pessoa como centro da qualidade, revolucionei a gestão e dei um susto na administração, conseguindo ser demitida porque estava "instigando os funcionários a pensar nas suas condições de trabalho".
A partir daí a oportunidade de atuar na rede pública surgiu com o início do meu trabalho enquanto psicóloga no Serviço de Atenção Integral à Saúde Mental de Alegrete. Fiz quase mil horas de trabalho voluntário neste serviço, na expectativa de ser contratada para passar a pertencer à equipe técnica da "Saúde Mental" como era chamado o local. Me apaixonei pelo desafio que estava posto de efetivamente contribuir para a contrução de algo ainda considerado alternativo na época, mas que sabíamos pelos resultados obtidos na reabilitação dos usuários, que estava prestes a consolidar-se como substitutivo ao manicômio.
O pedido de minha contratação foi feito por colegas do Serviço de Saúde Mental, mas a intervenção da colega psicóloga Maria Izabel Pradel no Conselho Municipal de Saúde garantiu efetivamente minha contratação e passei a me sentir ainda mais parte daquela construção da saúde mental na cidade.
A Maria Izabel na época estava na Coordenadoria Regional de Saúde(10aCRS), mas nunca deixou de estar participando com os cuidados e a estruturação da política de saúde mental de Alegrete, uma vez que é figura histórica tendo sido ela junto com os colegas Dr.João Witt(psiquiatra), Dra. Luiza Santos(neurologista), Julia Taborda(enfermeira), Irene Grande(Assistente Social), Téc.Enfermagem Silvio que em 18 de julho de 1989, orientados pela política estadual de saúde mental(Paismental), reuniram-se para definir a criação do Serviço de Saúde Mental de Alegrete, ainda na forma de ambulatório, mas não menos importante porque segundo relato de Maria Izabel, mesmo atendendo os doentes mentais e orientando seus familiares em visitas domiciliares, a equipe atuava em prevenção fazendo palestras nas escolas, atendimentos às crianças, contato com os demais entes da rede e reunindo-se permanentemente com o objetivo de estar sempre repensando suas práticas.
produção em saúde mental era intensa nesta época, temos registros de inúmeras experiências em que atuávamos junto ao usuário de forma absolutamente inusitada, como feito por uma colega que para garantir que o usuário doente mental pudesse ser medicado permitiu que o seu cachorro pudesse ir junto com ele na ambulância. Quando atuávamos transpondo nossa obrigação técnica, ajudando a fazer a limpeza do prédio, a fazer a alimentação, a pintar unhas, a cortar cabelo,etc... As vezes não tínhamos onde hospedar alguns doentes mentais que devido às crises haviam rompido os vínculos familiares, ficando com eles até a hora necessária para a abertura do albergue municipal, ou em caso de surto psicótico, nossa equipe tinha acordo de que deveríamos atender a qualquer hora do dia, noite, madrugadas e fins de semana incluindo-se os feriados.
Em consequência disso, tenho 2150 horas a serem descontadas na prefeitura de Alegrete. Nunca tínhamos possibilidade de descontar folgas devido à demanda de atendimento e assim eu e vários colegas que atuaram na construção da saúde mental de Alegrete esperamos ainda sermos "Justiçados", esperando sê-los por pessoas que sabem que é fato todo o trabalho feito na época para garantir a consolidação de uma história que hoje é referência nacional e ate´internacional e que destaca figuras públicas em função disso.
Tentei dialogar com a atual administração uma vez que parte dela é formada por pessoas do Fórum Gaúcho de Saúde Mental que intensificaram os avanços da política de saúde mental em Alegrete a aprtir de seu ingresso na rede pública a partir de 1991, mas minha reivindicação até o momento foi em vão.
Aliás, o Fórum Gaúcho de Saúde Mental me deve também um Certificado de conclusão de uma Pós Graduação em Saúde Mental Coletiva, feita entre os anos de 1995/1996, com 360 horas aula. Seus membros sempre responderam com o silêncio às minhas correspondências cobrando a solução do problema - acredito que qualquer profissional iria exigir seu direito. Algumas lideranças da política de saúde mental de Alegrete não gostam de tocar no assunto, mas o fato é que eu e alguns colegas contribuímos sinceramente com a construção da saúde mental porque pensávamos que estavamos ajudando a qualificar a vida das pessoas.
Não era meu desejo pessoal atuar na política partidária, mas sempre apoiei quem defendia a saúde mental, mas em muitos momentos de conflitos, naturais na luta por avanços e contrariedade de interesses, eu e muitos companheiros nos sentíamos absolutamente sozinhos pois não éramos incluídos nas fundamentais discussões sobre os passos a seguir, o que nos incomodava em função de que tínhamos opiniões importantes que certamente enriqueceriam o movimento.
Eu e meus colegas que "nos jogamos de cabeça na construção da saúde mental de Alegrete", não nos arrependemos do trabalho e das atuações feitas, no entanto nunca vamos desistir de receber o que temos direito senão, como eu já citei em outras situações, "enquanto a Prefeitura de Alegrete não pagar as horas extras que nos mandou fazer através de seus representantes, na Saúde Mental de Alegrete terá havido trabalho escravo e enriquecimento do ente público em detrimento da dignidade do trabalhador e isso mancha nossa história.
Lembro de que quando avaliávamos criar o projeto do Caps i, algumas pessoas diziam que "não iriam contribuir para contruir a administração que não era de seu partido". Nós pensávamos nas pessoas e assim, fizemos coletivamente o projeto. Depois foi assim com o Serviço Residencial Teapêutico - o prefeito da época colocou um nome que está divorciado da nossa história, mas enfim o pessoal que precisa de acolhimento teve onde morar - o nome pode ser revisto de forma mais democrática. Aliás, já estamos com a casa transbordando com 13 moradores, necessitando avaliar a inclusão de alguns em talvez um novo projeto habitacional, talvez abrigado como as demais casas que temos junto ao Serviço Residencial.
Da mesma forma, pensando na demanda criamos, também coletivamente, o projeto do Caps ad - nossa avaliação estava correta, pois infelizmente temos uma demanda enorme de usuários de drogas na cidade, principalmente os usuários de crack.
Paralelo à minha atuação profissional, participei intensamente da construção da política de Saúde Mental de Alegrete. Minha participação sempre foi fortemente marcada pelo questionamento que fazia e faço sobre o ideal do sonho e o que era possível realizar, contextualizando-se a realidade sócio-política em que vivíamos.
Participei da Qorpo Santo Cooperativa, fundada por membros do Fórum Gaúcho de Saúde Mental de Alegrete com a expectativa de geração de renda. Muito trabalhamos, fizemos inclusive as pastas do Encontro Nacional de Saúde Mental ocorrido em Porto Alegre. Afastei-me quando percebi que não era possível constituir uma cooperativa de usuários da saúde mental, familiares, militantes comandados como se fôssemos uma entidade tradicional.
Foi aí que somada a inúmeros militantes independentes, fundamos a Associação de Usuários, Familiares e Militantes da Saúde Mental de Alegrete. Na Associação fazíamos o debate de forma plural, levávamos e levamos sempre as demandas aos interessados. Assim temos nos envolvido em inúmeros problemas sociais da comunidade. Na época da fundação, atuamos fortemente para mudar a péssima qualidade da comida no Serviço de Saúde Mental e fomos vitoriosos, depois foi em relação à falta de medicações básicas, as dificuldades de acesso - conseguimos os passes livre aos Usuários Intensivos. Participamos intensamente da discussão e da implementação da "1a Turma de Alfabetização dentro do Caps". Depois disso, vários dos usuários intensivos foram para o Eja ou ensino regular.
Defendemos a necessidade de criar uma Casa de Moradia Transitória para acolher as crianças e adolescentes que enfrentavam a violência familiar e o risco social. Fizemos inclusive o projeto de funcionamento da casa que existe até hoje.
Também nos associamos a outras entidades como por exemplo, os Conselhos Comunitários, na defesa dos segmentos excluídos, a exemplo dos idosos. Através de projeto de nossa sócia, a ex- Vereadora e Ex-Secretária de Educação Giovanna Vargas, foi criada a Casa Lar do Idoso Dr. Romário de Oliveira. Durante nossa atuação conjunta também com o Conselho de Assistência Social, identificamos o absurdo de idosos morrerem de hipotermia durante o inverno, se terem onde morar. Também a população de rua estava em situação de abandono.
Nossa Associação tem consciência de que o ideal para as pessoas é estar no seio da família desde que exista estrutura de afetividade para tal. Caso não seja possível uma restauração de vínculos familiares a curto prazo, há a necessidade de acolhimento de forma digna e os entes públicos precisam se responsabilizar pelas providências.
Temos nos envolvido atualmente com os direitos dos idosos, dos usuários do Sus, dos deficientes. Numa destas situações, estamos cobrando do executivo municipal que exija das empresas do transporte coletivo urbanos que seja cumprido o artigo 152 da Lei Orgânica Municipal de Alegrete que diz que "todos os ônibus devem ter condições de acesso aos deficientes". Sabemos que ônibus adaptados com elevadores para cadeirantes foram entregues à Prefeitura Municipal e estamos sugerindo que sejam colocados à disposição da população.
Instituímos em nossa associação a experiência de um Colegiado Gestor e estamos nos desafiando a representar as nossas lutas de forma coletiva, por isso queremos nos somar com as demais entidades que tenham a mesma finalidade, pois acreditamos que podemos fazer da política uma real forma de inclusão, respeitando as individualidades, a história de cada companheiro que se soma conosco, os direitos humanos e sociais e principalmente, a capacidade das pessoas de transporem seus sofrimentos e transformá-los em bandeiras de luta por uma sociedade para todos.
Para concluir, conto que devido às circunstâncias financeiras e ao salário dos trabalhadores de saúde que ainda não possuem uma equivalência salarial que garanta sua sobrevivência de forma digna, fiz novo concurso público em minha cidade natal - São Francisco de Assis-RS, onde tive que enfrentar a contrariedade de lideranças políticas locais, as quais não queriam permitir que eu trabalhasse concomitantemente ao município de Alegrete. Passei por muito sofrimento, mas não abri mão da legislação e de meus direitos e hoje atuo também no Caps Nova Vida, um lugar também de especial respeito à pessoa com sofrimento, onde da mesma forma que em Alegrete, estou ajudando a constituir espaços de avaliações das práticas e avanços necessários. No momento estamos envolvidos na estruturação de um Serviço Residencial Terapêutico e em breve, a construção de uma sede própria para o caps.
Nestes encontros da vida, mais precisamente no Encontro Nacional da Luta Antimanicomial de Maceió-Al, eu e meus companheiros de militância da saúde mental conhecemos a Rosangela Barrenha, nossa querida amiga Rose de Bauru, como falamos entre nós. Ela tem uma trajetória maravilhosa na saúde mental de São Paulo e atavés dela, queremos interagir com todos que ajudam a cosntruir a saúde mental em nosso país e por todos os lugares deste planeta.
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