DOM QUIXOTE

DOM QUIXOTE
De Assis Costa - artista potiguar

sábado, 28 de agosto de 2010

Rosângela Barrenha, 52 anos, filha de espanhol, psicóloga por profissão e por paixão.
Adolescente tímida descobrí meu lugar no mundo e na “tribo” no papel de ouvidora e tradutora de gente. Sempre fui viciada em gente.(Uau!!Na veia!).
.Em 77 entrei na Fundação Educacional de Bauru (atual UNESP de Bauru - SP).
Estudei com muita dificuldade, crédito educativo e muito trabalho (vendia cachorro-quente, pão caseiro, caixão de defunto, toalha de crochê e consórcio de piano).
Tive intensa vida universitária; participei ativamente do movimento estudantil, das baladas no CIENTE (clube noturno dos diretórios unificados), movimento de mulheres, cine-clube e movimentos de cultura popular.Tempos de ditadura militar, muito medo e adrenalina, o poder da juventude que tinha o ideal de construir uma sociedade mais justa.
Sinto-me parte da história de meu país: inventamos o movimento da luta anti-manicomial, conquistamos a democracia e uma nova Psicologia Social.
Viví o auge da revolução de costumes, da quebra dos tradicionais papéis reservados ás mulheres no casamento e na política.
Esta é a marca de minha geração, cicatriz boa que define o que sou hoje.
Em 84, prestei concurso para técnica de projetos comunitários para atuar com movimentos populares no governo do Tuga Angerami. Foi uma experiência muito rica, de crescimento pessoal, amadurecimento de convicções e aprendizagem sobre políticas públicas.
Aprendi na prática que saúde mental e justiça social andam juntas.
Não é possível ser feliz se estamos cegos para o mundo em que vivemos.
A única salvação é ver-pensar-agir como gente e cidadão.
Isto me mantém motivada a trabalhar: posso ajudar um paciente a perceber que seu sofrimento não é único (embora cada um o seja) e que ele não é impotente perante o mundo. Acredito que podemos mudar muita coisa que nos afeta .
Mesmo quando as mudanças demoram (pois não dependem só da gente) saber que há solução já traz alívio.
“Caminhante: não há caminho. O caminho se faz ao caminhar...”
É aí que entra a experiência de minha geração: saber que a participação individual fez diferença.
Isto não tem preço e ninguém nos toma.
Há muitas dificuldades em trabalhar no SUS, especialmente em um pronto-socorro:convivemos com a morte/ doença/ sofrimento/ miséria sem maquiagem.
Também é lá que vemos o melhor do ser humano: a bondade e a solidariedade que não esperam troco, a boa vontade de profissionais de valor que fazem o impossível pelo outro sem nenhum reconhecimento e apoio.
Vejo gente que passa fome dividindo o último pedaço de pão com um estranho, gente que cuida do vizinho doente e idoso por puro amor ao próximo, que dá o lugar na fila para o infeliz que está pior...
Nosso povo é especial, ainda não engoliu totalmente a ideologia do individualismo e da competição imposta pelo sistema (graças á Deus).Este é o germe da mudança...
Sonhei e construí o grupo “Loucos por Alegria” como aposta pessoal e fé nas pessoas.
Não se trata de filantropia nem de substituir o Estado em suas tarefas e talvez este seja o diferencial de tantos outros grupos e projetos.
.Não basta ajudar, queremos mudar.
Isto só acontece quando o outro sai da condição de paciente que - segundo o dicionário – é “aquele que padece e recebe a ação de um agente” (de saúde, no caso) para a condição de agente (aquele que pratica a ação) e “a gente” (parte de algo, um grupo, um movimento, uma tribo).
Nossa luta é por políticas públicas que possibilitem melhores condições e qualidade de vida ás pessoas. No caso da saúde mental, por uma rede que priorize investimentos na prevenção e que acabe com os mecanismos de exclusão e segregação do portador de transtornos mentais e emocionais.
Isto implica em acabar com os manicômios e aí mexemos com interesses econômicos de muita gente. Ainda hoje 90% de hospitais psiquiátricos são privados e recebem muita grana por cabeça. Se não dessem lucro, ninguém ia querer.
Ainda há pessoas que agradecem a existência do hospital pois não tem nem idéia de como poderia (ou pelo menos deveria) ser um serviço substitutivo.
Isto se mantém pelos mitos do imaginário coletivo da periculosidade e da improdutividade do doente mental.
Pesquisas demonstram que gente dita “normal” é mais perigosa que o louco e nem por isso fica presa a vida toda sem julgamento e sem pena.Além disso, experiências concretas com cooperativas (especialmente no R.G. do Sul) mostram que o doente mental - quando tem oportunidade e respeito pelas suas peculiariedades - produz e muito (mas não no ritmo do capitalismo).
Sabemos perfeitamente que uma pessoa em surto psicótico ou usuária de álcool e drogas pode oferecer perigo a si e aos outros e necessita de internação. Para estes casos, deve haver hospitais gerais que ofereçam internação de curta duração. Há ainda sociopatas que terão que ser contidos a vida toda porque não possuem mecanismos internos de censura e auto-controle, mas não podemos exagerar e generalizar.
Muitas vezes a própria família se vê na contingência de internar o seu doente e defende o hospital porque não há uma rede de apoio para o tratamento sem exclusão.
A miséria também empurra milhares de pessoas para o manicômio porque não tem o que comer e onde morar por isso é comum encontrar indigentes e crianças abandonadas em hospitais psiquiátricos.
Diagnóstico: Fome. Injustiça social.
O manicômio é só um paliativo.
Nós queremos equipes mínimas nos postos de saúde com treinamento adequado para sair de trás de suas mesas e ir á escola fazer prevenção em parceria com o pessoal da cultura, dos esportes e do lazer.Que atue com idosos e desempregados, com donas de casa deprimidas, que planeje ações com a promoção social, a associação de moradores, os grupos de jovens das igrejas, os sindicatos, as forças atuantes da COMUNIDADE...
Nós queremos a criação de residências terapêuticas para os pacientes dos hospitais para que voltem a viver em nosso mundo; que sejam aceitos como “diferentes” com direitos, que possam trabalhar e sentir-se importantes para a sua comunidade...
Nós queremos a implantação de serviços de emergência psiquiátrica para que a pessoa com sofrimento mental agudo seja acolhida, ouvida e medicada por 72 horas em regime intensivo e não seja enviada para o manicômio. Sei que isto dá certo; é minha vivência no pronto-socorro, especialmente com suicidas. Uma boa escuta e acolhimento fazem milagres...Não é deixar dois psiquiatras (bons) de plantão no PS Central somente para avaliar se interna ou não...
Queremos CAPS e oficinas terapêuticas onde o paciente passe seu dia de forma prazeirosa e produtiva e não receba apenas drogas, drogas e drogas...Aliás, hoje o maior problema da saúde pública / saúde mental é o número assombroso de dependentes químicos de drogas legais, receitadas por profissionais que não tem preparo para lidar com o sofrimento mental.
Pressionados pelas péssimas condições de trabalho e sem tempo de ouvir (sem treinamento também), receitam Diazepan como água...Seria mais barato colocar na caixa dágua...
O doente acha que está se tratando (quando só está se viciando) e perde a raiva e a coragem para fazer as necessárias mudanças em sua vida.
Como diz meu amigo ginecologista Rodolfo Celeste, ás vezes a solução é mudar de marido, dando um basta ás causas da depressão.
Para isto é preciso ter coragem... e aí entra o psicólogo.
Se eu tivesse poder para implantar políticas públicas de saúde mental, faria isto: capacitar os médicos para lidar com o sofrimento sem reservas.
Também valorizaria os outros profissionais da saúde, melhorando salários, possibilitando capacitação, reduzindo carga horária, criando mecanismos de valorização do bom profissional através de um plano de carreira adequado...
Valorizaria os enfermeiros (e auxiliares de enfermagem), que é quem carrega a Saúde nas costas e tem contato direto com o paciente quando está em sofrimento.
Faria um trabalho de sensibilização com a população para romper com os mitos sobre a doença e o doente, esclarecendo sobre as possibilidades de tratamento sem exclusão.
O grupo “Loucos por Alegria” é um instrumento para alcançar estes objetivos.
Quando apresentamos as peças “Um dia no SUS...” e “Uma história do Brasil”, procuramos sensibilizar os participantes para estas questões, mostrando que é possível mudar as coisas. A isto nós chamamos de cidadania: deixar de ser paciente e intervir concretamente na definição das políticas públicas. Por isso já participamos do Conselho Gestor, Comissão de Saúde Mental, reuniões do Conselho de Saúde (são abertas a qualquer um) e onde mais for possível nos fazer ouvir.Vamos a escolas, empresas, encontros e eventos acadêmicos, reuniões do movimento da luta anti-manicomial, conferências, etc.
Para nós, resolve. Sentimos que não somos impotentes mas sujeitos da História.
Além disto, construímos no grupo relações de solidariedade e respeito. E amor.
Reconstruímos relações sociais esgarçadas pela falta de tempo, de dinheiro, de oportunidades, pela TV que aliena, pela solidão que mata...
Fazemos lazer/prazer estando simplesmente juntos: velhos, jovens e crianças, pretos e brancos, homossexuais e heterossexuais, estudados e gente simples, ricos e pobres num prenúncio vivido de uma sociedade mais justa.
Contamos piadas, rimos de nós mesmos, representamos nossos medos e preconceitos no teatro e nos divertimos muito com tudo isto.
Aparentemente, esta prática incomoda muita gente pois questiona a tecnoburocracia.
Trabalhamos com grupos fechados em respeito ao paciente e visando facilitar vinculos, mas ELES querem grupos abertos.
Oferecemos terapia individual, eles exigem somente trabalho em grupo.
Respeitamos o tempo de cada um, eles exigem tratamentos de 12 semanas (mas não cumprem com o que cobram).
Fazemos prevenção e atendimentos de urgência há mais de 10 anos e eles montam “treinamentos” para a rede somente com psiquiatras sem nem ao menos considerar a possibilidade de qualquer contribuição nossa.
Nossa equipe perdeu a saúde mental, basta ver nossos prontuários funcionais...
Isto é normal ?
Estado e municipio fizeram o acordo informal da municipalização da saúde mental sem considerar nossas dificuldades e impossibilidades. Recebemos toda esta demanda sem poder ao menos reclamar.
Hoje existe em Bauru uma rede cujo formato mostra a total inversão de políticas dos últimos anos pois nem 10% dos recursos humanos e materiais estão investidos na rede básica e emergência que é, em última instância, atribuição da Prefeitura.
Há quatro serviços secundários (os CAPScômios...) funcionando práticamente com os mesmos profissionais e atendendo a mesma demanda que sempre atendeu como NAPS.
A “vantagem” apontada é que agora a quantidade distribuída de Diazepan aumentou
Nem um centavo foi investido na rede básica e ainda perdemos as poucas conquistas que fizemos praticamente sozinhas.
Tudo que foi aprovado pelo povo nas Conferências não foi cumprido.
Trabalhamos com a qualidade e resolutividade, eles nos cobram a quantidade.
Lutamos para trabalhar em rede, eles nos excluem e desqualificam qualquer sugestão.
Herdamos pacientes que se arrastam do ASM para o NAPS atrás de receitas há 20 anos!!!!
Não é a toa que estes técnicos que vem definindo as políticas de saúde mental em Bauru nos últimos 20 anos defendam com tanto afinco a manutenção do hospital psiquiátrico...
Esta tem sido a realidade dos profissionais e usuários nos últimos anos....até que nossas esperanças renasceram.
Aprendemos na prática a planejar e executar ações cujo fim não é apenas o nosso prazer pessoal: é o outro
O OUTRO que é nosso espelho e nos lembra que somos gente com as mesmas necessidades, raça humana, só muda de endereço. O outro com quem nos importamos...
Se isto não é saúde mental então não sei o que é.
Pelo menos é a minha saúde mental...e a caravana passa!
O que motiva as pessoas a participar? Pergunte a elas...

ROSÂNGELA MARIA BARRENHA
PSICÓLOGA



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