PROFISSÃO DE FÉ
“- Doutora, por que é que ainda não inventaram Diazepan para a dor de viver?”
Meu trabalho é ouvir pessoas
Segredo a quatro paredes,
plantio a quatro mãos.
(às vezes pianíssimo, às vezes não )
Hipertensos e diabéticos,
Hipercinéticos, tratoristas,
Poetas, poliqueixosos,
Espíritas e fetichistas.
Ouço a mulher do tetraplégico,
Suicidas, balconistas,
o tímido, a depressiva, o viúvo,
Bêbados! Tristes equilibristas...
Ouço o que quero e o que não quero,
Como um espelho, reverbero,
Devolvo, levo a pensar.
(E anoto o CID na FAA )
Ouço todos os desesperados:
Maridos cansados, pedreiros drogados
Aqueles que não querem se separar,
Aqueles que não sabem dizer “não”,
Aqueles que se curam (mas não querem sarar...)
Na escuta, querem tradução.
(Procuram a arte de viver
que eu tão bem
finjo saber...)
Meu trabalho é uma escola
Lições de vida e sobrevida
Exemplos de navegar
-João ensina a beber sem ninguém saber,
-Maria, a fingir na hora de gozar.
Aprendo com o moribundo
Pior que a morte é o medo da morte
Pior que a morte é o medo do mundo
Pior que a morte é o medo de amar...
Aprendo a ser fada do bem
Bruxa e mãe, pai e irmão.
Aprendo a falar duro
Consolo, esconjuro,
- Espelho, salto no escuro
Limite, abraço, muro
Exercício de paixão.
E por mais que eu invente
Aprendi com o residente:
por mais que a ciência tente
não se descobriu a ciência
de sentir o que o outro sente.
Já disse a assistente social
da equipe mínima de saúde mental:
Sossegue, a vida é assim mesmo!
Cada um dá o que tem...
Meu trabalho é uma porta aberta:
Gentes e coisas que entram e saem,
sem pedir licença,
sem ter a decência
ao menos de se despedir.
Sibele vai embora. Rogério vai embora.
Sirenes, urgências,
Alguém “vai a óbito”,
Partos, comas, separação.
Quem não aguenta, que dê o fora!
A dentista cansou de esperar promoção.
Quem fica, pergunta(tomando café):
“- Como vai o caso da mocinha estuprada? ”
O caso vai. A moça vai. A dor fica.
Pronto-Socorro das Almas!
Morte e adeus são rotinas...
Como disse a pediatra:
“Quem gosta de Frank Sinatra
não deve fazer Medicina! ”
Às vezes, alguém volta
Amigo ou paciente de alta
presente e flores na mão.
Agradece, se despede.
Outros, não.
Fim de plantão. Cansada,
fecho a porta, aliviada:
Hoje não fui questionada
se sinto medo da solidão...
( e quem quiser que conte outra ! )
Rosângela Maria Barrenha
Bauru,SP- julho de 2000.
domingo, 9 de maio de 2010
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