ESCREVO MUITO E NEM TUDO TEM A VER COM O MOVIMENTO NACIONAL DA LUTA ANTI-MANICOMIAL. TEM SIM A HAVER COM O MEU MOVIMENTO ANTI-MANICOMIAL, AQUELA LUTA INTERIOR DE CADA UM PRA NÃO ENLOUQUECER, PRA NÃO DESABAR A CADA TOMBO QUE A VIDA DÁ, PRA PARECER "NORMAL"...
ENTÃO ESCREVO. E CANTO. E AMO.
LÁ NO MEU BLOG (QUE MAL SEI MANEJAR, EU, ANALFANET) ESTÁ A MINHA LUTA...QUEM QUISER COMPARTILHAR, SERÁ BEM VINDO!rosangelabarrenha.blogspot.com
UTOPIA
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
OUTRA HISTÓRIA...PRA PENSAR NA LEI DO ATO MÉDICO
CORAÇÃO NEGRO
Nunca acreditei no capeta.
Naquele dia, vi nosso colega do plantão chegar agitado.
Homem culto, estudado, procurava sempre fazer seu trabalho da melhor forma possível.
É bem verdade que tinha ás vezes surtos incontroláveis de ira, mas já fechara seu próprio diagnóstico: BIPOLAR.
Talvez por isso mantivesse quatro empregos em cidades diferentes, arriscando a vida na estrada todos os dias.
Já estávamos habituados á montanha-russa de seu humor, visto não haver outro jeito; nem o chefe conseguia afastá-lo.
Tinha bom relacionamento com políticos e fama de ser bom clínico.
Ninguém lhe era indiferente: seus pacientes o odiavam ou idolatravam-no.
Os colegas não-médicos temiam-no pois nunca perdia chance de gritar .
Suas ex-mulheres contavam estórias estranhas.
Aos seus pares, jamais admitia erros: pois que então queriam ensinar o padre-nosso ao vigário?
Orgulhava-se das vidas que salvara ao longo da carreira.
No café, perdia-se em detalhes técnicos que não compreendíamos, contando “daquela” traqueostomia na senhora do Ferradura Mirim; ou da vez em que...
O café esfriava em cima da mesa até a sirene da próxima ambulância fazê-lo sair como doido pelo corredor.
Naquele dia não foi assim.
Chegou taciturno, mãos suando, camisa desalinhada.
Parecia abstinente das drogas costumeiras que o faziam dormir nas 2 horas de repouso permitidas e das outras que o mantinham alerta durante o plantão.
Fechou-se no quarto de conforto médico.
O colega assumiu sem muitas perguntas.
Parecia daqueles dias em que o calor é tanto que o ar pesa em prenúncio de tempestade: sente-se o seu cheiro mesmo com o céu limpo e o sol escaldante.
Eu sentia que algo estava para acontecer sem saber o que.
Como num filme já assistido, ouví a sirene da ambulância e corri para ajudar.
A Kombi vomitou de suas entranhas o velho Raul: bêbado contumaz,era freguês do Pronto-Socorro dia-sim-dia-não e vítima predileta de meu colega, pois lembrava-lhe o próprio pai alcoólatra.
Afinal, tornara-se médico na inútil esperança de curá-lo.
Como morrera vomitando o próprio fígado, meu colega esperava então puni-lo - simbolicamente - através de todos os pobres diabos que lhe apareciam á frente.
Senti um frio na espinha: sabia que não era um bom dia para Raul.
Entrou xingando a enfermeira tão alto que arrancou seu algoz do esconderijo.
“- Deixa comigo”.O médico saiu do conforto como para uma batalha.
Todos afastaram-se para não presenciar o suplício de Raul - disfarçado de lavagem estomacal, aplicação de medicamentos desnecessários e o inútil sermão de duas horas que nosso colega lhe pregava como o lamento do menino que um dia foi.
Seus olhos neste dia pareciam duas contas avermelhadas, tamanha a raiva pelo mendigo.
Raul, ao vê-lo, arregalou os olhos e a bocarra sem dentes de forma inusitada.
Parecia preso em espanto, engasgado mais com o próprio medo que com a cachaça.
Pulava feito frango destroncado e não havia quem ou o que o segurasse á maca, irritando mais ainda ao doutor.
Em um monólogo de doido, atado á cama, balbuciava coisas desconexas em mau português: Vem " - pra mim e deixe-o em paz! Sai, capeta, deixe-o em paz!”
Olhava como que através do médico, nem o Haldol fazia efeito.
Meu colega mandou dobrar a prescrição, com raiva do infeliz.
Quando rompeu as amarras e atracou-se com meu colega, tivemos a nítida impressão de que não queria feri-lo, mas abraçá-lo.
“Me matas e eu te salvo, filho do cão! Não acredita, não acredita? É o capeta e você não acredita!Eu te livrei do caminhão na estrada e você não acredita?”
Em fúria, foi jogado ao chão.
Morreu ali mesmo, convulsionando.
Meia hora depois meu colega teve uma crise nervosa e vomitou as tripas.
Disse a quem quisesse ouvir, chorando, que acabara de escapar de um terrível acidente na estrada vindo para o trabalho: um caminhão sem freios quase o esmagou.
Foi sua última crise.
Hoje é espírita e melhorou muito... ROSE
Nunca acreditei no capeta.
Naquele dia, vi nosso colega do plantão chegar agitado.
Homem culto, estudado, procurava sempre fazer seu trabalho da melhor forma possível.
É bem verdade que tinha ás vezes surtos incontroláveis de ira, mas já fechara seu próprio diagnóstico: BIPOLAR.
Talvez por isso mantivesse quatro empregos em cidades diferentes, arriscando a vida na estrada todos os dias.
Já estávamos habituados á montanha-russa de seu humor, visto não haver outro jeito; nem o chefe conseguia afastá-lo.
Tinha bom relacionamento com políticos e fama de ser bom clínico.
Ninguém lhe era indiferente: seus pacientes o odiavam ou idolatravam-no.
Os colegas não-médicos temiam-no pois nunca perdia chance de gritar .
Suas ex-mulheres contavam estórias estranhas.
Aos seus pares, jamais admitia erros: pois que então queriam ensinar o padre-nosso ao vigário?
Orgulhava-se das vidas que salvara ao longo da carreira.
No café, perdia-se em detalhes técnicos que não compreendíamos, contando “daquela” traqueostomia na senhora do Ferradura Mirim; ou da vez em que...
O café esfriava em cima da mesa até a sirene da próxima ambulância fazê-lo sair como doido pelo corredor.
Naquele dia não foi assim.
Chegou taciturno, mãos suando, camisa desalinhada.
Parecia abstinente das drogas costumeiras que o faziam dormir nas 2 horas de repouso permitidas e das outras que o mantinham alerta durante o plantão.
Fechou-se no quarto de conforto médico.
O colega assumiu sem muitas perguntas.
Parecia daqueles dias em que o calor é tanto que o ar pesa em prenúncio de tempestade: sente-se o seu cheiro mesmo com o céu limpo e o sol escaldante.
Eu sentia que algo estava para acontecer sem saber o que.
Como num filme já assistido, ouví a sirene da ambulância e corri para ajudar.
A Kombi vomitou de suas entranhas o velho Raul: bêbado contumaz,era freguês do Pronto-Socorro dia-sim-dia-não e vítima predileta de meu colega, pois lembrava-lhe o próprio pai alcoólatra.
Afinal, tornara-se médico na inútil esperança de curá-lo.
Como morrera vomitando o próprio fígado, meu colega esperava então puni-lo - simbolicamente - através de todos os pobres diabos que lhe apareciam á frente.
Senti um frio na espinha: sabia que não era um bom dia para Raul.
Entrou xingando a enfermeira tão alto que arrancou seu algoz do esconderijo.
“- Deixa comigo”.O médico saiu do conforto como para uma batalha.
Todos afastaram-se para não presenciar o suplício de Raul - disfarçado de lavagem estomacal, aplicação de medicamentos desnecessários e o inútil sermão de duas horas que nosso colega lhe pregava como o lamento do menino que um dia foi.
Seus olhos neste dia pareciam duas contas avermelhadas, tamanha a raiva pelo mendigo.
Raul, ao vê-lo, arregalou os olhos e a bocarra sem dentes de forma inusitada.
Parecia preso em espanto, engasgado mais com o próprio medo que com a cachaça.
Pulava feito frango destroncado e não havia quem ou o que o segurasse á maca, irritando mais ainda ao doutor.
Em um monólogo de doido, atado á cama, balbuciava coisas desconexas em mau português: Vem " - pra mim e deixe-o em paz! Sai, capeta, deixe-o em paz!”
Olhava como que através do médico, nem o Haldol fazia efeito.
Meu colega mandou dobrar a prescrição, com raiva do infeliz.
Quando rompeu as amarras e atracou-se com meu colega, tivemos a nítida impressão de que não queria feri-lo, mas abraçá-lo.
“Me matas e eu te salvo, filho do cão! Não acredita, não acredita? É o capeta e você não acredita!Eu te livrei do caminhão na estrada e você não acredita?”
Em fúria, foi jogado ao chão.
Morreu ali mesmo, convulsionando.
Meia hora depois meu colega teve uma crise nervosa e vomitou as tripas.
Disse a quem quisesse ouvir, chorando, que acabara de escapar de um terrível acidente na estrada vindo para o trabalho: um caminhão sem freios quase o esmagou.
Foi sua última crise.
Hoje é espírita e melhorou muito... ROSE
PEDAÇOS DO MEU LIVRO
SER PSICÓLOGO NÃO É FÁCIL...QUEM OUVE HISTÓRIAS E ESTÓRIAS HÁ 25 ANOS, ÁS VEZES NEM TEM TEMPO DE VIVER.ÁS VEZES VIVE ATRAVÉS DO OUTRO, ESPELHO DE NOSSA PRÓPRIA ALMA.PRA NÃO PIRAR, ESCREVO.
SÃO "HISTÓRIAS DE QUEM GOSTA DE OUVIR", UM DIA AINDA VIRA LIVRO!
ESTOU EM LICENÇA MÉDICA HÁ 15 DIAS, DEPOIS DE UMA QUEDA FEIA E A INTERNET TEM SIDO MINHA ÚNICA ATIVIDADE.
POSTO HOJE ENTÃO UMA CRÔNICA QUE TEM TUDO A HAVER.
desamor@internet.com.br
Á amiga recém-conquistada, contou em manhã de abril que divorciara-se por falta de libido.
O marido, funcionário federal, sempre lhe dera de tudo, menos adrenalina.
Perderam a juventude digladiando-se longe dos filhos até ele começar a beber.
Sabia-se insincera, ele também.Odiava suas cobranças, por isso fingia orgasmos - e ele fingia acreditar.
A filha denunciava sua perda de viço com peculiar maldade adolescente e nem assim tinha coragem de recomeçar: acomodava-se á gordura e ao sexo anêmico e sem prazer.
Aos 40, por puro enfado, quis fazer um curso de massagem estética.
O marido enciumou-se: pois não teria clientes homens? Não, mas gostou da novidade e teimou no curso.A primeira aula prática mudou sua vida: viu, em febre, o professor gay tocar com tamanha solenidade e delicadeza as costas de uma cliente-cobaia que quase desmaiou.
A simples possibilidade de tocar um centímetro de pele humana sem os rituais a que estava habituada aterrorizou-a a ponto de adoecer.Sede de vida.
Viveu meses num fascínio doido, sonhos estranhos que se interrompiam com gritos na madrugada.
Danou-se a ver filmes escondido até que o marido comprou-lhe um computador como incentivo a uma possível volta aos estudos de segundo grau.
Se nunca fora boa dona-de-casa, aí é que desinteressou-se de tudo mesmo.
Alcoólatra a seco, bebia agora INTERNET.
E comia.
Alucinada por fantasias e explodindo de solidão, devorava todos os biscoitos da casa a bordo do Pentium turbinado.
Disputava aos sopapos a posse do mouse com o filho de14 anos.
O marido - que a esta altura bebia mais e arranjara uma amante - implorava, por pura solidariedade humana, que voltasse ao mundo dos vivos.Em vão.
Acabou por separar-se dela deixando-lhe tudo, inclusive os filhos. Estes, preocupados, telefonavam diariamente relatando a loucura da mãe, que falava sozinha e se comunicava com estranhos pela Internet o dia todo.
Nunca mais saiu de casa, até as compras ficaram por conta deles.
Na formatura da filha encontraram-se no jantar onde finalmente brigaram por pequenas e antigas bobagens. Em acesso de raiva confessou, rancorosa: “Nunca senti desejo por você”, jogou-lhe na cara. - ”Só agora sou feliz”.
Voltou para casa pisando torto nos saltos aos quais não se acostumava, entrou no escritório como uma rainha vitoriosa e lá morreu de overdose de vida.
Foi encontrada no dia seguinte pelos filhos totalmente morta e ensanguentada.
Cortara os pulsos com a taça de champanhe quebrada.No computador.
ROSE
SÃO "HISTÓRIAS DE QUEM GOSTA DE OUVIR", UM DIA AINDA VIRA LIVRO!
ESTOU EM LICENÇA MÉDICA HÁ 15 DIAS, DEPOIS DE UMA QUEDA FEIA E A INTERNET TEM SIDO MINHA ÚNICA ATIVIDADE.
POSTO HOJE ENTÃO UMA CRÔNICA QUE TEM TUDO A HAVER.
desamor@internet.com.br
Á amiga recém-conquistada, contou em manhã de abril que divorciara-se por falta de libido.
O marido, funcionário federal, sempre lhe dera de tudo, menos adrenalina.
Perderam a juventude digladiando-se longe dos filhos até ele começar a beber.
Sabia-se insincera, ele também.Odiava suas cobranças, por isso fingia orgasmos - e ele fingia acreditar.
A filha denunciava sua perda de viço com peculiar maldade adolescente e nem assim tinha coragem de recomeçar: acomodava-se á gordura e ao sexo anêmico e sem prazer.
Aos 40, por puro enfado, quis fazer um curso de massagem estética.
O marido enciumou-se: pois não teria clientes homens? Não, mas gostou da novidade e teimou no curso.A primeira aula prática mudou sua vida: viu, em febre, o professor gay tocar com tamanha solenidade e delicadeza as costas de uma cliente-cobaia que quase desmaiou.
A simples possibilidade de tocar um centímetro de pele humana sem os rituais a que estava habituada aterrorizou-a a ponto de adoecer.Sede de vida.
Viveu meses num fascínio doido, sonhos estranhos que se interrompiam com gritos na madrugada.
Danou-se a ver filmes escondido até que o marido comprou-lhe um computador como incentivo a uma possível volta aos estudos de segundo grau.
Se nunca fora boa dona-de-casa, aí é que desinteressou-se de tudo mesmo.
Alcoólatra a seco, bebia agora INTERNET.
E comia.
Alucinada por fantasias e explodindo de solidão, devorava todos os biscoitos da casa a bordo do Pentium turbinado.
Disputava aos sopapos a posse do mouse com o filho de14 anos.
O marido - que a esta altura bebia mais e arranjara uma amante - implorava, por pura solidariedade humana, que voltasse ao mundo dos vivos.Em vão.
Acabou por separar-se dela deixando-lhe tudo, inclusive os filhos. Estes, preocupados, telefonavam diariamente relatando a loucura da mãe, que falava sozinha e se comunicava com estranhos pela Internet o dia todo.
Nunca mais saiu de casa, até as compras ficaram por conta deles.
Na formatura da filha encontraram-se no jantar onde finalmente brigaram por pequenas e antigas bobagens. Em acesso de raiva confessou, rancorosa: “Nunca senti desejo por você”, jogou-lhe na cara. - ”Só agora sou feliz”.
Voltou para casa pisando torto nos saltos aos quais não se acostumava, entrou no escritório como uma rainha vitoriosa e lá morreu de overdose de vida.
Foi encontrada no dia seguinte pelos filhos totalmente morta e ensanguentada.
Cortara os pulsos com a taça de champanhe quebrada.No computador.
ROSE
AOS AMIGOS E COLABORADORES: INFORMAMOS A GRADE DE ATIVIDADES QUE ESTÁ SENDO DESENVOLVIDA NO CENTRO COMUNITÁRIO DO GEISEL (RUA ANTHERO DONINNI, QUADRA 1 - AO LADO DA ESCOLA E DO POSTO DE SAÚDE).ESTAS ATIVIDADES COMPÕEM O PROJETO REDE DE TALENTOS DA NOSSA ASSOCIAÇÃO LOUCOS POR ALEGRIA.O PROJETO EXISTE HÁ 9 ANOS E JÁ FOI DESENVOLVIDO NA VILA INDEPENDENCIA, NO JARDIM PROGRESSO, NO PARQUE UNIÃO E NA BELA VISTA (NESTA, TOTALMENTE GRATUITO).ESTAMOS AGORA FAZENDO PARCERIA COM A A ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DO GEISEL, UNESP E EMPRESAS PRIVADAS PARA OFERECER Á COMUNIDADE CURSOS E ATIVIDADES MINISTRADOS POR PESSOAS TALENTOSAS E QUE PRECISEM TRABALHAR OU AUMENTAR SUA RENDA, REVITALIZANDO UM ESPAÇO PÚBLICO, A UM PREÇO ACESSIVEL.COM ISTO, PRETENDEMOS FAZER PREVENÇÃO EM SAÚDE MENTAL:LAZER, CULTURA, ATIVIDADES FÍSICAS, APRENDIZAGEM E TREINAMENTO DE HABILIDADES NOVAS, DESENVOLVIMENTO DE CRIATIVIDADE E SENSO CRÍTICO, MAIOR SOCIALIZAÇÃO EM UM AMBIENTE SAUDÁVEL, VALORIZAÇÃO DOS TALENTOS DA COMUNIDADE, UTILIZAÇÃO ADEQUADA DE UM PRÉDIO QUE É DE TODOS...ISTO TUDO É CIDADANIA, SAÚDE MENTAL E QUALIDADE DE VIDA!È A CRIAÇÃO DE UMA REDE DE PROTEÇÃO NA COMUNIDADE PARA CRIANÇAS, ADOLESCENTES, MULHERES, IDOSOS, DESEMPREGADOS E TODO CIDADÃO QUE SE ENCONTRA EM SITUAÇÃO DE VULNERABILIDADE!PEDIMOS A COLABORAÇÃO DE TODOS DIVULGANDO O PROJETO, PARTICIPANDO DOS CURSOS, FEQUENTANDO OS MUTIRÕES, FESTAS E BRECHÓS BENEFICIENTES.ENTÃO LÁ VAI, ANOTEM: SEGUNDA-FEIRA: 17:30 HORAS - CURSO DE KUNG FU COM O INSTRUTOR JONAS MOREIRA 20:00 HORAS - CURSO DE DANÇA DE SALÃO COM A PRF. VIVIANE MACHADO TERÇA-FEIRA: 14:30 HORAS - BALÉ CLÁSSICO E COMTEMPORÂNEO COM A PROF. CHIARA VALVERDE ZANOTTI 17:30 HORAS - NOVAMENTE KUNG FU COM PRF JONAS MOREIRA 20:00 HORAS - DANÇA DE SALÃO COM PROF. VIVIANE MACHADO(TURMA 2) (JÁ ESTÁ BOMBANDO!) QUARTA-FEIRA: 15:00 HORAS - OFICINAS DE ARTESANATO (VÁRIOS MONITORES - AINDA NÃO INICIOU) 18:30 HORAS - BALÉ CLÁSSICO PARA CRIANÇAS DE 5 A 7 ANOS, COM A PROF. ANDRÉA CARVALHO 20:00 HORAS - BALÉ CLÁSSICO PARA CRIANÇAS DE 8 A 10 ANOS COM A MESMA PROFESSORA QUINTA - FEIRA: 14:30 HORAS - BALÉ CLÁSSICO E COMTEMPORÂNEO PARA ADULTOS COM PRF. CHIARA VALVERDE ZANOTTI 16:00 HORAS - CURSO DE DANÇA DO VENTRE COM A PROFA. ROSÂNGELA DE LIMA 20:00 HORAS - CURSO DE DANÇA DO VENTRE COM A MESMA PROFESSORA SEXTA-FEIRA 19:00 HORAS - CURSO DE BALÉ CLÁSSICO E CONTEMPORÂNEO PARA ADOLESCENTES -PRF. ANDRÉA CARVALHO SÁBADO 10:00 HORAS - ATIVIDADE DE FISIOTERAPIA PREVENTIVA COM A FISIOTERAPEUTA MICHELE DO CARMO OS INTERESSADOS PODE FAZER SUA PRÉ-INSCRIÇÃO NA BIBLIOTECA RAMAL DO BAIRRO COM O VALTINHO (RUA ALZIRO ZARUR), OU NO PRÓPRIO CENTRO COMUNITÁRIO. O INVESTIMENTO É DE 15 REAIS POR MÊS POR CURSO. CASO QUEIRA ASSOCIAR-SE Á ONG, PODERÁ GOZAR DE DESCONTOS (SE FIZER MAIS DE UM CURSO) E PARTICIPAR DAS OUTRAS ATIVIDADES QUE OFERECEMOS, COMO O CINE-CLUBE, OS SARAUS ARTISTICOS E ORIENTAÇÃO JURÍDICA (A INICIAR-SE EM OUTUBRO). OS COLABORADORES PODERÃO AUXILIAR COM A DOAÇÃO DE MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO PARA TERMINARMOS A REFORMA DO PRÉDIO, COMO: VIDROS, ESPELHOS, TINTA, ROLOS E PINCEIS, REVESTIMENTOS, FECHADURAS, ROUPAS, CALÇADOS E UTENSÍLIOS USADOS PARA O NOSSO BRECHIC (BRECHÓ PERMANENTE) E ESPECIALMENTE NA IMPRESSÃO DE MATERIAIS DIVERSOS COMO FOLHETOS E CAMISETAS. EM CONTRAPARTIDA, DAREMOS TODA A PUBLICIDADE POSSIVEL AOS PATROCINADORES. TAMBÉM ESTAMOS ESTRUTURANDO O PROJETO "RECREARTE" NO PERÍODO DA MANHÃ PARA CRIANÇAS DE 8 A 12 ANOS, COM TEATRO, REFORÇO ESCOLAR, ATIVIDADES FÍSICAS, CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS, ETC.OS INTERESSADOS EM ADERIR Á NOSSA PROPOSTA DE TRABALHO E TIVER INTERESSE EM DAR AULAS, FAVOR FAZER CONTATO PELO FONE 3018-0013 (ROSE) NO PERÍODO DA TARDE.UMA REDE SE TECE COM COM O TRABALHO DE GENTE QUE DOA UM POUCO DE SEU TEMPO COM TODO O AMOR DO MUNDO.ISTO É SER LOUCO POR ALEGRIA! O RESTO É MALUQUICE...
terça-feira, 21 de setembro de 2010
O Crack assusta. E os benzodiazepínicos não?
Já tratei deste tema anteriormente, mas diante do lançamento de um novo pacote no dia de ontem pelo governo federal, o qual destina mais de 140 milhões ao enfretamento do crack e outras drogas, volto a uma reflexão que acho fundamental.
A cortina que esconde as causas do elevado consumo de drogas está certamente vinculada às situações sociais e culturais em nosso país. Desde o debate para o acesso às universidade através de cotas para negros estamos afirmando que há desigualdade social, que ela é imensa e que precisa ser enfrentada de forma séria e com efetiva mudança de paradigmas.´
O crack, sub-produto da cocaína tem sido consumido pelo jovens mais pobres. Pelo fato de ser o "resto do resto", custa mais barato. Uma pedra por R$ 1,oo, segundo relatos dos consumidores. A população que consome o crack não é a mesma, na sua maioria que consome cocaína.
Segundo dados das autoridades de saúde e da mídia, temos no Brasil uma epidemia com mais de dois milhões de consumidores de crack. Pelo menos os que foram cadastrados em algum serviço de saúde e saúde mental.
A ruptura com os vínculos familiares e sociais coloca o usuário em uma situação de risco extremo, precisando ser abordado por ações emergenciais de cuidados aos usuários.
Penso que o aumento de mais de seis mil leitos em hospitais gerais, comunidades terapeuticas e caps ad 24 hs serão de grande valia, mas pergunto quais as ações principais de inclusão dos jovens junto com o tratamento. A tal reabilitação associada à reinserção social. Será via atenção especializada? Ações conjuntas saúde, assistência social, esportes, empregos, escolas?
Outra questão que me incomoda enquanto faço essas avaliações: O que estamos fazendo enquanto redes de saúde mental para cuidar dos mais de 2,5 milhões de dependentes de benzodiazepínicos? Esses mantidos através de receitas de medicamentos feitas quase que mensalmente? Esses dependentes silenciosos que não causam transtornos à sociedade porque estão entorpecidos em seus leitos? Que programas sociais os governos possuem para mudar essa realidade silenciosa? Porque os Caps e demais centros de atenção não conseguiram até agora romper com o modelo médico-hegemônico da doença-medicação ou medicalização da vida? Eu quero ouvir as respostas...
domingo, 12 de setembro de 2010
Nadia Mileto
Nasci e resido atualmente no Rio Grande do Sul. Sou descendente de imigrantes italianos que vieram da europa na época da primeira guerra mundial pois já não tinham mais condições de trabalho e renda na sua terra natal pelo contexto político instalado e que a história relata com propriedade. Minha mãe foi costureira e meu pai foi pedreiro, portanto aprendi desde pequena o valor do trabalho na nossa vida. Lutei muito para me tornar psicóloga. Primeiro iniciei estudo de pedagogia em Alegrete-RS, após fui convidada pela minha irmã mais velha para morar e estudar em Juiz de Fora-MG onde eu poderia estudar psicologia e ajudá-la a cuidar das filhas gêmeas ainda bebês - aceitei na hora e vi ali minha chance de formar na profisão que sonhava.
Em Juiz de Fora conheci Paulo Delgado, professor do Cursinho Pré-Vestibular "Universitário", que depois ajudei a eleger Deputado Federal e que apresentou o Projeto de Lei da Reforma Psiquiátrica. Conheci também o Pedro Gabriel, irmão do Paulo Delgado, ambos eram de Juiz de Fora. Pedro Gabriel era um dos grandes participantes da reforma sanitária brasileira e em consequencia, também da reforma psiquiátrica. Médico psiquiatra, tinha clareza pela sua história de vida e de atuação que o louco tinha o direito de ser cidadão. Minha faculdade, o CES-JF (Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora-MG) deve ter sido um dos primeiros locais onde o Deputado Federal Paulo Delgado-PT escolheu para apresentar publicamente seu Projeto da Reforma Psiquiátrica, o que muito nos orgulhava enquanto estudantes que viviam ainda na prática, a dura realidade do hospício.
Fiz uma parte do meu estágio num hospital psiquiátrico da cidade onde em que as condições de vida eram absolutamente degradantes. Tínhamos um professor psiquiatra que fazia questão de dizer que lá não era lugar de psicólogos. Respondíamos para ele que entendíamos que não deveria ser lugar para ninguém e que nosso compromisso seria com as pessoas em situação de sofrimento sem precisar trancá-las.
Após formar em Psicologia em junho/1990, continuei meu trabalho em uma siderúrgica com a esperança de que trabalhar na gestão de pessoas pudesse me dar condições de desenvolver meu trabalho como psicóloga de forma mais inclusiva. Veio o plano Collor e devastou o emprego de milhares de trabalhadores neste pais, dentre eles o meu emprego. Trabalhei um período junto com meus familiares e depois decidi lutar para trabalhar no que gosto - a psicologia.
Vim para a cidade de Alegrete em abril de 1995, quando consegui emprego numa cooperativa de produtores local. Tinha conhecimentos sobre a tal qualidade total, mas aprendi a colocar a pessoa como centro da qualidade, revolucionei a gestão e dei um susto na administração, conseguindo ser demitida porque estava "instigando os funcionários a pensar nas suas condições de trabalho".
A partir daí a oportunidade de atuar na rede pública surgiu com o início do meu trabalho enquanto psicóloga no Serviço de Atenção Integral à Saúde Mental de Alegrete. Fiz quase mil horas de trabalho voluntário neste serviço, na expectativa de ser contratada para passar a pertencer à equipe técnica da "Saúde Mental" como era chamado o local. Me apaixonei pelo desafio que estava posto de efetivamente contribuir para a contrução de algo ainda considerado alternativo na época, mas que sabíamos pelos resultados obtidos na reabilitação dos usuários, que estava prestes a consolidar-se como substitutivo ao manicômio.
O pedido de minha contratação foi feito por colegas do Serviço de Saúde Mental, mas a intervenção da colega psicóloga Maria Izabel Pradel no Conselho Municipal de Saúde garantiu efetivamente minha contratação e passei a me sentir ainda mais parte daquela construção da saúde mental na cidade.
A Maria Izabel na época estava na Coordenadoria Regional de Saúde(10aCRS), mas nunca deixou de estar participando com os cuidados e a estruturação da política de saúde mental de Alegrete, uma vez que é figura histórica tendo sido ela junto com os colegas Dr.João Witt(psiquiatra), Dra. Luiza Santos(neurologista), Julia Taborda(enfermeira), Irene Grande(Assistente Social), Téc.Enfermagem Silvio que em 18 de julho de 1989, orientados pela política estadual de saúde mental(Paismental), reuniram-se para definir a criação do Serviço de Saúde Mental de Alegrete, ainda na forma de ambulatório, mas não menos importante porque segundo relato de Maria Izabel, mesmo atendendo os doentes mentais e orientando seus familiares em visitas domiciliares, a equipe atuava em prevenção fazendo palestras nas escolas, atendimentos às crianças, contato com os demais entes da rede e reunindo-se permanentemente com o objetivo de estar sempre repensando suas práticas.
produção em saúde mental era intensa nesta época, temos registros de inúmeras experiências em que atuávamos junto ao usuário de forma absolutamente inusitada, como feito por uma colega que para garantir que o usuário doente mental pudesse ser medicado permitiu que o seu cachorro pudesse ir junto com ele na ambulância. Quando atuávamos transpondo nossa obrigação técnica, ajudando a fazer a limpeza do prédio, a fazer a alimentação, a pintar unhas, a cortar cabelo,etc... As vezes não tínhamos onde hospedar alguns doentes mentais que devido às crises haviam rompido os vínculos familiares, ficando com eles até a hora necessária para a abertura do albergue municipal, ou em caso de surto psicótico, nossa equipe tinha acordo de que deveríamos atender a qualquer hora do dia, noite, madrugadas e fins de semana incluindo-se os feriados.
Em consequência disso, tenho 2150 horas a serem descontadas na prefeitura de Alegrete. Nunca tínhamos possibilidade de descontar folgas devido à demanda de atendimento e assim eu e vários colegas que atuaram na construção da saúde mental de Alegrete esperamos ainda sermos "Justiçados", esperando sê-los por pessoas que sabem que é fato todo o trabalho feito na época para garantir a consolidação de uma história que hoje é referência nacional e ate´internacional e que destaca figuras públicas em função disso.
Tentei dialogar com a atual administração uma vez que parte dela é formada por pessoas do Fórum Gaúcho de Saúde Mental que intensificaram os avanços da política de saúde mental em Alegrete a aprtir de seu ingresso na rede pública a partir de 1991, mas minha reivindicação até o momento foi em vão.
Aliás, o Fórum Gaúcho de Saúde Mental me deve também um Certificado de conclusão de uma Pós Graduação em Saúde Mental Coletiva, feita entre os anos de 1995/1996, com 360 horas aula. Seus membros sempre responderam com o silêncio às minhas correspondências cobrando a solução do problema - acredito que qualquer profissional iria exigir seu direito. Algumas lideranças da política de saúde mental de Alegrete não gostam de tocar no assunto, mas o fato é que eu e alguns colegas contribuímos sinceramente com a construção da saúde mental porque pensávamos que estavamos ajudando a qualificar a vida das pessoas.
Não era meu desejo pessoal atuar na política partidária, mas sempre apoiei quem defendia a saúde mental, mas em muitos momentos de conflitos, naturais na luta por avanços e contrariedade de interesses, eu e muitos companheiros nos sentíamos absolutamente sozinhos pois não éramos incluídos nas fundamentais discussões sobre os passos a seguir, o que nos incomodava em função de que tínhamos opiniões importantes que certamente enriqueceriam o movimento.
Eu e meus colegas que "nos jogamos de cabeça na construção da saúde mental de Alegrete", não nos arrependemos do trabalho e das atuações feitas, no entanto nunca vamos desistir de receber o que temos direito senão, como eu já citei em outras situações, "enquanto a Prefeitura de Alegrete não pagar as horas extras que nos mandou fazer através de seus representantes, na Saúde Mental de Alegrete terá havido trabalho escravo e enriquecimento do ente público em detrimento da dignidade do trabalhador e isso mancha nossa história.
Lembro de que quando avaliávamos criar o projeto do Caps i, algumas pessoas diziam que "não iriam contribuir para contruir a administração que não era de seu partido". Nós pensávamos nas pessoas e assim, fizemos coletivamente o projeto. Depois foi assim com o Serviço Residencial Teapêutico - o prefeito da época colocou um nome que está divorciado da nossa história, mas enfim o pessoal que precisa de acolhimento teve onde morar - o nome pode ser revisto de forma mais democrática. Aliás, já estamos com a casa transbordando com 13 moradores, necessitando avaliar a inclusão de alguns em talvez um novo projeto habitacional, talvez abrigado como as demais casas que temos junto ao Serviço Residencial.
Da mesma forma, pensando na demanda criamos, também coletivamente, o projeto do Caps ad - nossa avaliação estava correta, pois infelizmente temos uma demanda enorme de usuários de drogas na cidade, principalmente os usuários de crack.
Paralelo à minha atuação profissional, participei intensamente da construção da política de Saúde Mental de Alegrete. Minha participação sempre foi fortemente marcada pelo questionamento que fazia e faço sobre o ideal do sonho e o que era possível realizar, contextualizando-se a realidade sócio-política em que vivíamos.
Participei da Qorpo Santo Cooperativa, fundada por membros do Fórum Gaúcho de Saúde Mental de Alegrete com a expectativa de geração de renda. Muito trabalhamos, fizemos inclusive as pastas do Encontro Nacional de Saúde Mental ocorrido em Porto Alegre. Afastei-me quando percebi que não era possível constituir uma cooperativa de usuários da saúde mental, familiares, militantes comandados como se fôssemos uma entidade tradicional.
Foi aí que somada a inúmeros militantes independentes, fundamos a Associação de Usuários, Familiares e Militantes da Saúde Mental de Alegrete. Na Associação fazíamos o debate de forma plural, levávamos e levamos sempre as demandas aos interessados. Assim temos nos envolvido em inúmeros problemas sociais da comunidade. Na época da fundação, atuamos fortemente para mudar a péssima qualidade da comida no Serviço de Saúde Mental e fomos vitoriosos, depois foi em relação à falta de medicações básicas, as dificuldades de acesso - conseguimos os passes livre aos Usuários Intensivos. Participamos intensamente da discussão e da implementação da "1a Turma de Alfabetização dentro do Caps". Depois disso, vários dos usuários intensivos foram para o Eja ou ensino regular.
Defendemos a necessidade de criar uma Casa de Moradia Transitória para acolher as crianças e adolescentes que enfrentavam a violência familiar e o risco social. Fizemos inclusive o projeto de funcionamento da casa que existe até hoje.
Também nos associamos a outras entidades como por exemplo, os Conselhos Comunitários, na defesa dos segmentos excluídos, a exemplo dos idosos. Através de projeto de nossa sócia, a ex- Vereadora e Ex-Secretária de Educação Giovanna Vargas, foi criada a Casa Lar do Idoso Dr. Romário de Oliveira. Durante nossa atuação conjunta também com o Conselho de Assistência Social, identificamos o absurdo de idosos morrerem de hipotermia durante o inverno, se terem onde morar. Também a população de rua estava em situação de abandono.
Nossa Associação tem consciência de que o ideal para as pessoas é estar no seio da família desde que exista estrutura de afetividade para tal. Caso não seja possível uma restauração de vínculos familiares a curto prazo, há a necessidade de acolhimento de forma digna e os entes públicos precisam se responsabilizar pelas providências.
Temos nos envolvido atualmente com os direitos dos idosos, dos usuários do Sus, dos deficientes. Numa destas situações, estamos cobrando do executivo municipal que exija das empresas do transporte coletivo urbanos que seja cumprido o artigo 152 da Lei Orgânica Municipal de Alegrete que diz que "todos os ônibus devem ter condições de acesso aos deficientes". Sabemos que ônibus adaptados com elevadores para cadeirantes foram entregues à Prefeitura Municipal e estamos sugerindo que sejam colocados à disposição da população.
Instituímos em nossa associação a experiência de um Colegiado Gestor e estamos nos desafiando a representar as nossas lutas de forma coletiva, por isso queremos nos somar com as demais entidades que tenham a mesma finalidade, pois acreditamos que podemos fazer da política uma real forma de inclusão, respeitando as individualidades, a história de cada companheiro que se soma conosco, os direitos humanos e sociais e principalmente, a capacidade das pessoas de transporem seus sofrimentos e transformá-los em bandeiras de luta por uma sociedade para todos.
Para concluir, conto que devido às circunstâncias financeiras e ao salário dos trabalhadores de saúde que ainda não possuem uma equivalência salarial que garanta sua sobrevivência de forma digna, fiz novo concurso público em minha cidade natal - São Francisco de Assis-RS, onde tive que enfrentar a contrariedade de lideranças políticas locais, as quais não queriam permitir que eu trabalhasse concomitantemente ao município de Alegrete. Passei por muito sofrimento, mas não abri mão da legislação e de meus direitos e hoje atuo também no Caps Nova Vida, um lugar também de especial respeito à pessoa com sofrimento, onde da mesma forma que em Alegrete, estou ajudando a constituir espaços de avaliações das práticas e avanços necessários. No momento estamos envolvidos na estruturação de um Serviço Residencial Terapêutico e em breve, a construção de uma sede própria para o caps.
Nestes encontros da vida, mais precisamente no Encontro Nacional da Luta Antimanicomial de Maceió-Al, eu e meus companheiros de militância da saúde mental conhecemos a Rosangela Barrenha, nossa querida amiga Rose de Bauru, como falamos entre nós. Ela tem uma trajetória maravilhosa na saúde mental de São Paulo e atavés dela, queremos interagir com todos que ajudam a cosntruir a saúde mental em nosso país e por todos os lugares deste planeta.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
O FIM DOS MANICOMIOS - POR NÁDIA MILETO
O FIM DOS MANICÔMIOS É UMA LUTA CONSTANTE....
A algum tempo fui assistir o lançamento de uma nova droga, prima da fluoxetina, com a única melhoria de que reduzia a desagradável sensação de boca seca. A apresentação da novidade foi feita por um daqueles representantes de laboratório, muito bem falante, o qual parecia ter engolido um cd com todas as informações sobre tudo daquele tema. O cidadão em determinado momento disparou que a reforma psiquiátrica só teria sido possível devido à qualidade das medicações que existem no mercado, que até permitiam que um doente mental pudesse conviver com a sociedade. O tal papagaio tele-guiado nada sabia sobre movimento de reforma sanitária, psiquiátrica, etc...e nem queria saber.
Nestes vinte e poucos anos desde Bauru em 1987, os trabalhadores se articularam, chamaram usuários, familiares, militantes dos direitos humanos e fizeram uma revolução neste país que culminou com a abertura democrática, a nova Constituição Federal, o SUS, a Reforma Psiquiátrica e a construção de uma política de saúde e saúde mental pública das mais fantásticas do planeta, porém não conseguiu combater os manicômios.
Os hospícios de concreto estão lá, melhorados, atualizados e ainda 38% dos recursos públicos federais para a saúde mental vão para eles. Alguns diriam para comemorarmos porque já foi pior. Estes lugares que nossos olhos percebem, a sociedade tem feito esforço através de lutas permanentes para exterminá-los porque excluem, mas o que nos ocupa são os manicômios subjetivos. Estes terão fim um dia?
Nos nove anos de vácuo sem novas conferências de saúde mental, período que ficamos sem discutir mais amplamente nossas práticas nos enfraqueceram enquanto movimentos sociais, não tivemos capacidade e não sei se muitos de nós tiveram desejo de formar sucessores, mais parceiros para essa luta da cidadania. O resultado disso é um estado de torpor e letargia que nos assola enquanto militantes, que não deixa de pensar no hospício como uma alternativa para tratar os craqueteiros que ficam muito violentos e outras situações que os municípios não conseguem dar contas. .
O crack trouxe consigo uma proposital idéia de epidemia e logo a mídia dominante convenceu que era preciso trancar para tratar.
O governo do Rio Grande do Sul tem bancado financeiramente leitos fechados em hospitais públicos, nega a lei 10216 e fecha os olhos para as práticas manicomiais, que não permitem o acesso de familiares e nem de profissionais dos caps dentro destas unidades intensivas, ou seja, é o manicômio ressurgindo com forças em pleno século XXI.
Ainda não se conseguiu mudar o modelo médico-hegemônico de cuidado e já vem novamente o manicômio dizer que é necessário, ou melhor, fundamental para o equilíbrio da sociedade.
Afora as questões ideológicas, sabemos que o capitalismo que domina ainda o planeta tem sido gerador de exclusão e de abandono social. Que uma das conseqüências disso é a fuga para algo que ajude a sustentar alguma esperança e blá, blá blá, papo de intelectuais, alguém se apressaria em dizer. Mas é fato, a vida está muito insuportável para muitos cidadãos, descontando-se os que possuem problemas de conduta e de nada se beneficiariam de fazer essa avaliação, a busca em preencher o vazio existencial culmina com a necessidade desenfreada de consumo, do uso das drogas e no caso que aqui discutimos, a manutenção de estruturas e paradigmas que a muito deveriam estar superados.
Nas conferências municipais e estaduais que tive notícias pouco se avançou a respeito do papel das medicações psiquiátricas, sobre a real necessidade delas e sobre o conhecimento amplo que a lei diz que o usuário deve ter sobre seu tratamento. Alguém pode dizer que já está na lei, mas é preciso estar na vida cotidiana e não está ainda.
O cotidianos da maioria dos caps deste pais é parecido. O doutor faz a prescrição, renova receita e o usuário e seus familiares não entendem nem perguntam porque é preciso tanta medicação. Se for pouca sempre há reclamação. Se o médico não prescrever, deixa de ser bom profissional, pois como é que o cidadão com sofrimento psíquico vai ficar sem usar nada. A idéia da medicalização permanece intacta. O remédio é a pílula milagrosa que ajuda a enfrentar a dura realidade do desemprego, os tantos ônibus lotados, o aluguem caro, a falta de condições de vida digna, etc
O remédio para o doente mental ainda está no centro do tratamento. Na grande maioria das vezes o usuário não sabe o que toma e porque toma, quando reluta é porque está cansado, sem esperanças de melhorar ou tem medo de enlouquecer de novo. Daí não discute, não questiona o doutor, não se sente com capacidade para entender porque precisa tomar aquela dose daquele remédio e o que pode vir a acontecer se não tomar, se tomar menos, se tomar mais... A rotina da maioria dos caps deste pais ainda é assim, filas imensas para agendar consultas médicas, psiquiatras se valorizando, usuários brigando porque querem a receita e querem o remédio.
O esforço militante dos lugares que prestam atendimento especializado ambulatorial e até mesmo na rede básica onde mesmo havendo menor compreensão sobre a reforma psiquiátrica, encontra-se maior acolhimento e participação no cotidiano dos portadores de sofrimento psíquico, é de que há a necessidade de maior empoderamento do usuário acerca do seu tratamento, para que compreendendo os porquês da necessidade de alguns medicamentos, possa colocá-los como algo importante em sua estabilidade emocional, mas jamais central como ainda o é hoje.
Sabemos que este é um dos grandes desafios de todos os militantes da saúde mental deste país, porque temos que colocar a vida e a pessoa com toda a sua individualidade e complexidade no centro, mas para isso é fundamental que cada um possa ir assumindo seu papel nesta caminhada para acelerar esta mudança que é cultural mas é principalmente em defesa da dignidade humana e da vida.
Nadia Mileto-
O FIM DOS MANICÔMIOS É UMA LUTA CONSTANTE....
A algum tempo fui assistir o lançamento de uma nova droga, prima da fluoxetina, com a única melhoria de que reduzia a desagradável sensação de boca seca. A apresentação da novidade foi feita por um daqueles representantes de laboratório, muito bem falante, o qual parecia ter engolido um cd com todas as informações sobre tudo daquele tema. O cidadão em determinado momento disparou que a reforma psiquiátrica só teria sido possível devido à qualidade das medicações que existem no mercado, que até permitiam que um doente mental pudesse conviver com a sociedade. O tal papagaio tele-guiado nada sabia sobre movimento de reforma sanitária, psiquiátrica, etc...e nem queria saber.
Nestes vinte e poucos anos desde Bauru em 1987, os trabalhadores se articularam, chamaram usuários, familiares, militantes dos direitos humanos e fizeram uma revolução neste país que culminou com a abertura democrática, a nova Constituição Federal, o SUS, a Reforma Psiquiátrica e a construção de uma política de saúde e saúde mental pública das mais fantásticas do planeta, porém não conseguiu combater os manicômios.
Os hospícios de concreto estão lá, melhorados, atualizados e ainda 38% dos recursos públicos federais para a saúde mental vão para eles. Alguns diriam para comemorarmos porque já foi pior. Estes lugares que nossos olhos percebem, a sociedade tem feito esforço através de lutas permanentes para exterminá-los porque excluem, mas o que nos ocupa são os manicômios subjetivos. Estes terão fim um dia?
Nos nove anos de vácuo sem novas conferências de saúde mental, período que ficamos sem discutir mais amplamente nossas práticas nos enfraqueceram enquanto movimentos sociais, não tivemos capacidade e não sei se muitos de nós tiveram desejo de formar sucessores, mais parceiros para essa luta da cidadania. O resultado disso é um estado de torpor e letargia que nos assola enquanto militantes, que não deixa de pensar no hospício como uma alternativa para tratar os craqueteiros que ficam muito violentos e outras situações que os municípios não conseguem dar contas. .
O crack trouxe consigo uma proposital idéia de epidemia e logo a mídia dominante convenceu que era preciso trancar para tratar.
O governo do Rio Grande do Sul tem bancado financeiramente leitos fechados em hospitais públicos, nega a lei 10216 e fecha os olhos para as práticas manicomiais, que não permitem o acesso de familiares e nem de profissionais dos caps dentro destas unidades intensivas, ou seja, é o manicômio ressurgindo com forças em pleno século XXI.
Ainda não se conseguiu mudar o modelo médico-hegemônico de cuidado e já vem novamente o manicômio dizer que é necessário, ou melhor, fundamental para o equilíbrio da sociedade.
Afora as questões ideológicas, sabemos que o capitalismo que domina ainda o planeta tem sido gerador de exclusão e de abandono social. Que uma das conseqüências disso é a fuga para algo que ajude a sustentar alguma esperança e blá, blá blá, papo de intelectuais, alguém se apressaria em dizer. Mas é fato, a vida está muito insuportável para muitos cidadãos, descontando-se os que possuem problemas de conduta e de nada se beneficiariam de fazer essa avaliação, a busca em preencher o vazio existencial culmina com a necessidade desenfreada de consumo, do uso das drogas e no caso que aqui discutimos, a manutenção de estruturas e paradigmas que a muito deveriam estar superados.
Nas conferências municipais e estaduais que tive notícias pouco se avançou a respeito do papel das medicações psiquiátricas, sobre a real necessidade delas e sobre o conhecimento amplo que a lei diz que o usuário deve ter sobre seu tratamento. Alguém pode dizer que já está na lei, mas é preciso estar na vida cotidiana e não está ainda.
O cotidianos da maioria dos caps deste pais é parecido. O doutor faz a prescrição, renova receita e o usuário e seus familiares não entendem nem perguntam porque é preciso tanta medicação. Se for pouca sempre há reclamação. Se o médico não prescrever, deixa de ser bom profissional, pois como é que o cidadão com sofrimento psíquico vai ficar sem usar nada. A idéia da medicalização permanece intacta. O remédio é a pílula milagrosa que ajuda a enfrentar a dura realidade do desemprego, os tantos ônibus lotados, o aluguem caro, a falta de condições de vida digna, etc
O remédio para o doente mental ainda está no centro do tratamento. Na grande maioria das vezes o usuário não sabe o que toma e porque toma, quando reluta é porque está cansado, sem esperanças de melhorar ou tem medo de enlouquecer de novo. Daí não discute, não questiona o doutor, não se sente com capacidade para entender porque precisa tomar aquela dose daquele remédio e o que pode vir a acontecer se não tomar, se tomar menos, se tomar mais... A rotina da maioria dos caps deste pais ainda é assim, filas imensas para agendar consultas médicas, psiquiatras se valorizando, usuários brigando porque querem a receita e querem o remédio.
O esforço militante dos lugares que prestam atendimento especializado ambulatorial e até mesmo na rede básica onde mesmo havendo menor compreensão sobre a reforma psiquiátrica, encontra-se maior acolhimento e participação no cotidiano dos portadores de sofrimento psíquico, é de que há a necessidade de maior empoderamento do usuário acerca do seu tratamento, para que compreendendo os porquês da necessidade de alguns medicamentos, possa colocá-los como algo importante em sua estabilidade emocional, mas jamais central como ainda o é hoje.
Sabemos que este é um dos grandes desafios de todos os militantes da saúde mental deste país, porque temos que colocar a vida e a pessoa com toda a sua individualidade e complexidade no centro, mas para isso é fundamental que cada um possa ir assumindo seu papel nesta caminhada para acelerar esta mudança que é cultural mas é principalmente em defesa da dignidade humana e da vida.
Nadia Mileto-
sábado, 28 de agosto de 2010
Rosângela Barrenha, 52 anos, filha de espanhol, psicóloga por profissão e por paixão.
Adolescente tímida descobrí meu lugar no mundo e na “tribo” no papel de ouvidora e tradutora de gente. Sempre fui viciada em gente.(Uau!!Na veia!).
.Em 77 entrei na Fundação Educacional de Bauru (atual UNESP de Bauru - SP).
Estudei com muita dificuldade, crédito educativo e muito trabalho (vendia cachorro-quente, pão caseiro, caixão de defunto, toalha de crochê e consórcio de piano).
Tive intensa vida universitária; participei ativamente do movimento estudantil, das baladas no CIENTE (clube noturno dos diretórios unificados), movimento de mulheres, cine-clube e movimentos de cultura popular.Tempos de ditadura militar, muito medo e adrenalina, o poder da juventude que tinha o ideal de construir uma sociedade mais justa.
Sinto-me parte da história de meu país: inventamos o movimento da luta anti-manicomial, conquistamos a democracia e uma nova Psicologia Social.
Viví o auge da revolução de costumes, da quebra dos tradicionais papéis reservados ás mulheres no casamento e na política.
Esta é a marca de minha geração, cicatriz boa que define o que sou hoje.
Em 84, prestei concurso para técnica de projetos comunitários para atuar com movimentos populares no governo do Tuga Angerami. Foi uma experiência muito rica, de crescimento pessoal, amadurecimento de convicções e aprendizagem sobre políticas públicas.
Aprendi na prática que saúde mental e justiça social andam juntas.
Não é possível ser feliz se estamos cegos para o mundo em que vivemos.
A única salvação é ver-pensar-agir como gente e cidadão.
Isto me mantém motivada a trabalhar: posso ajudar um paciente a perceber que seu sofrimento não é único (embora cada um o seja) e que ele não é impotente perante o mundo. Acredito que podemos mudar muita coisa que nos afeta .
Mesmo quando as mudanças demoram (pois não dependem só da gente) saber que há solução já traz alívio.
“Caminhante: não há caminho. O caminho se faz ao caminhar...”
É aí que entra a experiência de minha geração: saber que a participação individual fez diferença.
Isto não tem preço e ninguém nos toma.
Há muitas dificuldades em trabalhar no SUS, especialmente em um pronto-socorro:convivemos com a morte/ doença/ sofrimento/ miséria sem maquiagem.
Também é lá que vemos o melhor do ser humano: a bondade e a solidariedade que não esperam troco, a boa vontade de profissionais de valor que fazem o impossível pelo outro sem nenhum reconhecimento e apoio.
Vejo gente que passa fome dividindo o último pedaço de pão com um estranho, gente que cuida do vizinho doente e idoso por puro amor ao próximo, que dá o lugar na fila para o infeliz que está pior...
Nosso povo é especial, ainda não engoliu totalmente a ideologia do individualismo e da competição imposta pelo sistema (graças á Deus).Este é o germe da mudança...
Sonhei e construí o grupo “Loucos por Alegria” como aposta pessoal e fé nas pessoas.
Não se trata de filantropia nem de substituir o Estado em suas tarefas e talvez este seja o diferencial de tantos outros grupos e projetos.
.Não basta ajudar, queremos mudar.
Isto só acontece quando o outro sai da condição de paciente que - segundo o dicionário – é “aquele que padece e recebe a ação de um agente” (de saúde, no caso) para a condição de agente (aquele que pratica a ação) e “a gente” (parte de algo, um grupo, um movimento, uma tribo).
Nossa luta é por políticas públicas que possibilitem melhores condições e qualidade de vida ás pessoas. No caso da saúde mental, por uma rede que priorize investimentos na prevenção e que acabe com os mecanismos de exclusão e segregação do portador de transtornos mentais e emocionais.
Isto implica em acabar com os manicômios e aí mexemos com interesses econômicos de muita gente. Ainda hoje 90% de hospitais psiquiátricos são privados e recebem muita grana por cabeça. Se não dessem lucro, ninguém ia querer.
Ainda há pessoas que agradecem a existência do hospital pois não tem nem idéia de como poderia (ou pelo menos deveria) ser um serviço substitutivo.
Isto se mantém pelos mitos do imaginário coletivo da periculosidade e da improdutividade do doente mental.
Pesquisas demonstram que gente dita “normal” é mais perigosa que o louco e nem por isso fica presa a vida toda sem julgamento e sem pena.Além disso, experiências concretas com cooperativas (especialmente no R.G. do Sul) mostram que o doente mental - quando tem oportunidade e respeito pelas suas peculiariedades - produz e muito (mas não no ritmo do capitalismo).
Sabemos perfeitamente que uma pessoa em surto psicótico ou usuária de álcool e drogas pode oferecer perigo a si e aos outros e necessita de internação. Para estes casos, deve haver hospitais gerais que ofereçam internação de curta duração. Há ainda sociopatas que terão que ser contidos a vida toda porque não possuem mecanismos internos de censura e auto-controle, mas não podemos exagerar e generalizar.
Muitas vezes a própria família se vê na contingência de internar o seu doente e defende o hospital porque não há uma rede de apoio para o tratamento sem exclusão.
A miséria também empurra milhares de pessoas para o manicômio porque não tem o que comer e onde morar por isso é comum encontrar indigentes e crianças abandonadas em hospitais psiquiátricos.
Diagnóstico: Fome. Injustiça social.
O manicômio é só um paliativo.
Nós queremos equipes mínimas nos postos de saúde com treinamento adequado para sair de trás de suas mesas e ir á escola fazer prevenção em parceria com o pessoal da cultura, dos esportes e do lazer.Que atue com idosos e desempregados, com donas de casa deprimidas, que planeje ações com a promoção social, a associação de moradores, os grupos de jovens das igrejas, os sindicatos, as forças atuantes da COMUNIDADE...
Nós queremos a criação de residências terapêuticas para os pacientes dos hospitais para que voltem a viver em nosso mundo; que sejam aceitos como “diferentes” com direitos, que possam trabalhar e sentir-se importantes para a sua comunidade...
Nós queremos a implantação de serviços de emergência psiquiátrica para que a pessoa com sofrimento mental agudo seja acolhida, ouvida e medicada por 72 horas em regime intensivo e não seja enviada para o manicômio. Sei que isto dá certo; é minha vivência no pronto-socorro, especialmente com suicidas. Uma boa escuta e acolhimento fazem milagres...Não é deixar dois psiquiatras (bons) de plantão no PS Central somente para avaliar se interna ou não...
Queremos CAPS e oficinas terapêuticas onde o paciente passe seu dia de forma prazeirosa e produtiva e não receba apenas drogas, drogas e drogas...Aliás, hoje o maior problema da saúde pública / saúde mental é o número assombroso de dependentes químicos de drogas legais, receitadas por profissionais que não tem preparo para lidar com o sofrimento mental.
Pressionados pelas péssimas condições de trabalho e sem tempo de ouvir (sem treinamento também), receitam Diazepan como água...Seria mais barato colocar na caixa dágua...
O doente acha que está se tratando (quando só está se viciando) e perde a raiva e a coragem para fazer as necessárias mudanças em sua vida.
Como diz meu amigo ginecologista Rodolfo Celeste, ás vezes a solução é mudar de marido, dando um basta ás causas da depressão.
Para isto é preciso ter coragem... e aí entra o psicólogo.
Se eu tivesse poder para implantar políticas públicas de saúde mental, faria isto: capacitar os médicos para lidar com o sofrimento sem reservas.
Também valorizaria os outros profissionais da saúde, melhorando salários, possibilitando capacitação, reduzindo carga horária, criando mecanismos de valorização do bom profissional através de um plano de carreira adequado...
Valorizaria os enfermeiros (e auxiliares de enfermagem), que é quem carrega a Saúde nas costas e tem contato direto com o paciente quando está em sofrimento.
Faria um trabalho de sensibilização com a população para romper com os mitos sobre a doença e o doente, esclarecendo sobre as possibilidades de tratamento sem exclusão.
O grupo “Loucos por Alegria” é um instrumento para alcançar estes objetivos.
Quando apresentamos as peças “Um dia no SUS...” e “Uma história do Brasil”, procuramos sensibilizar os participantes para estas questões, mostrando que é possível mudar as coisas. A isto nós chamamos de cidadania: deixar de ser paciente e intervir concretamente na definição das políticas públicas. Por isso já participamos do Conselho Gestor, Comissão de Saúde Mental, reuniões do Conselho de Saúde (são abertas a qualquer um) e onde mais for possível nos fazer ouvir.Vamos a escolas, empresas, encontros e eventos acadêmicos, reuniões do movimento da luta anti-manicomial, conferências, etc.
Para nós, resolve. Sentimos que não somos impotentes mas sujeitos da História.
Além disto, construímos no grupo relações de solidariedade e respeito. E amor.
Reconstruímos relações sociais esgarçadas pela falta de tempo, de dinheiro, de oportunidades, pela TV que aliena, pela solidão que mata...
Fazemos lazer/prazer estando simplesmente juntos: velhos, jovens e crianças, pretos e brancos, homossexuais e heterossexuais, estudados e gente simples, ricos e pobres num prenúncio vivido de uma sociedade mais justa.
Contamos piadas, rimos de nós mesmos, representamos nossos medos e preconceitos no teatro e nos divertimos muito com tudo isto.
Aparentemente, esta prática incomoda muita gente pois questiona a tecnoburocracia.
Trabalhamos com grupos fechados em respeito ao paciente e visando facilitar vinculos, mas ELES querem grupos abertos.
Oferecemos terapia individual, eles exigem somente trabalho em grupo.
Respeitamos o tempo de cada um, eles exigem tratamentos de 12 semanas (mas não cumprem com o que cobram).
Fazemos prevenção e atendimentos de urgência há mais de 10 anos e eles montam “treinamentos” para a rede somente com psiquiatras sem nem ao menos considerar a possibilidade de qualquer contribuição nossa.
Nossa equipe perdeu a saúde mental, basta ver nossos prontuários funcionais...
Isto é normal ?
Estado e municipio fizeram o acordo informal da municipalização da saúde mental sem considerar nossas dificuldades e impossibilidades. Recebemos toda esta demanda sem poder ao menos reclamar.
Hoje existe em Bauru uma rede cujo formato mostra a total inversão de políticas dos últimos anos pois nem 10% dos recursos humanos e materiais estão investidos na rede básica e emergência que é, em última instância, atribuição da Prefeitura.
Há quatro serviços secundários (os CAPScômios...) funcionando práticamente com os mesmos profissionais e atendendo a mesma demanda que sempre atendeu como NAPS.
A “vantagem” apontada é que agora a quantidade distribuída de Diazepan aumentou
Nem um centavo foi investido na rede básica e ainda perdemos as poucas conquistas que fizemos praticamente sozinhas.
Tudo que foi aprovado pelo povo nas Conferências não foi cumprido.
Trabalhamos com a qualidade e resolutividade, eles nos cobram a quantidade.
Lutamos para trabalhar em rede, eles nos excluem e desqualificam qualquer sugestão.
Herdamos pacientes que se arrastam do ASM para o NAPS atrás de receitas há 20 anos!!!!
Não é a toa que estes técnicos que vem definindo as políticas de saúde mental em Bauru nos últimos 20 anos defendam com tanto afinco a manutenção do hospital psiquiátrico...
Esta tem sido a realidade dos profissionais e usuários nos últimos anos....até que nossas esperanças renasceram.
Aprendemos na prática a planejar e executar ações cujo fim não é apenas o nosso prazer pessoal: é o outro
O OUTRO que é nosso espelho e nos lembra que somos gente com as mesmas necessidades, raça humana, só muda de endereço. O outro com quem nos importamos...
Se isto não é saúde mental então não sei o que é.
Pelo menos é a minha saúde mental...e a caravana passa!
O que motiva as pessoas a participar? Pergunte a elas...
ROSÂNGELA MARIA BARRENHA
PSICÓLOGA
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Adolescente tímida descobrí meu lugar no mundo e na “tribo” no papel de ouvidora e tradutora de gente. Sempre fui viciada em gente.(Uau!!Na veia!).
.Em 77 entrei na Fundação Educacional de Bauru (atual UNESP de Bauru - SP).
Estudei com muita dificuldade, crédito educativo e muito trabalho (vendia cachorro-quente, pão caseiro, caixão de defunto, toalha de crochê e consórcio de piano).
Tive intensa vida universitária; participei ativamente do movimento estudantil, das baladas no CIENTE (clube noturno dos diretórios unificados), movimento de mulheres, cine-clube e movimentos de cultura popular.Tempos de ditadura militar, muito medo e adrenalina, o poder da juventude que tinha o ideal de construir uma sociedade mais justa.
Sinto-me parte da história de meu país: inventamos o movimento da luta anti-manicomial, conquistamos a democracia e uma nova Psicologia Social.
Viví o auge da revolução de costumes, da quebra dos tradicionais papéis reservados ás mulheres no casamento e na política.
Esta é a marca de minha geração, cicatriz boa que define o que sou hoje.
Em 84, prestei concurso para técnica de projetos comunitários para atuar com movimentos populares no governo do Tuga Angerami. Foi uma experiência muito rica, de crescimento pessoal, amadurecimento de convicções e aprendizagem sobre políticas públicas.
Aprendi na prática que saúde mental e justiça social andam juntas.
Não é possível ser feliz se estamos cegos para o mundo em que vivemos.
A única salvação é ver-pensar-agir como gente e cidadão.
Isto me mantém motivada a trabalhar: posso ajudar um paciente a perceber que seu sofrimento não é único (embora cada um o seja) e que ele não é impotente perante o mundo. Acredito que podemos mudar muita coisa que nos afeta .
Mesmo quando as mudanças demoram (pois não dependem só da gente) saber que há solução já traz alívio.
“Caminhante: não há caminho. O caminho se faz ao caminhar...”
É aí que entra a experiência de minha geração: saber que a participação individual fez diferença.
Isto não tem preço e ninguém nos toma.
Há muitas dificuldades em trabalhar no SUS, especialmente em um pronto-socorro:convivemos com a morte/ doença/ sofrimento/ miséria sem maquiagem.
Também é lá que vemos o melhor do ser humano: a bondade e a solidariedade que não esperam troco, a boa vontade de profissionais de valor que fazem o impossível pelo outro sem nenhum reconhecimento e apoio.
Vejo gente que passa fome dividindo o último pedaço de pão com um estranho, gente que cuida do vizinho doente e idoso por puro amor ao próximo, que dá o lugar na fila para o infeliz que está pior...
Nosso povo é especial, ainda não engoliu totalmente a ideologia do individualismo e da competição imposta pelo sistema (graças á Deus).Este é o germe da mudança...
Sonhei e construí o grupo “Loucos por Alegria” como aposta pessoal e fé nas pessoas.
Não se trata de filantropia nem de substituir o Estado em suas tarefas e talvez este seja o diferencial de tantos outros grupos e projetos.
.Não basta ajudar, queremos mudar.
Isto só acontece quando o outro sai da condição de paciente que - segundo o dicionário – é “aquele que padece e recebe a ação de um agente” (de saúde, no caso) para a condição de agente (aquele que pratica a ação) e “a gente” (parte de algo, um grupo, um movimento, uma tribo).
Nossa luta é por políticas públicas que possibilitem melhores condições e qualidade de vida ás pessoas. No caso da saúde mental, por uma rede que priorize investimentos na prevenção e que acabe com os mecanismos de exclusão e segregação do portador de transtornos mentais e emocionais.
Isto implica em acabar com os manicômios e aí mexemos com interesses econômicos de muita gente. Ainda hoje 90% de hospitais psiquiátricos são privados e recebem muita grana por cabeça. Se não dessem lucro, ninguém ia querer.
Ainda há pessoas que agradecem a existência do hospital pois não tem nem idéia de como poderia (ou pelo menos deveria) ser um serviço substitutivo.
Isto se mantém pelos mitos do imaginário coletivo da periculosidade e da improdutividade do doente mental.
Pesquisas demonstram que gente dita “normal” é mais perigosa que o louco e nem por isso fica presa a vida toda sem julgamento e sem pena.Além disso, experiências concretas com cooperativas (especialmente no R.G. do Sul) mostram que o doente mental - quando tem oportunidade e respeito pelas suas peculiariedades - produz e muito (mas não no ritmo do capitalismo).
Sabemos perfeitamente que uma pessoa em surto psicótico ou usuária de álcool e drogas pode oferecer perigo a si e aos outros e necessita de internação. Para estes casos, deve haver hospitais gerais que ofereçam internação de curta duração. Há ainda sociopatas que terão que ser contidos a vida toda porque não possuem mecanismos internos de censura e auto-controle, mas não podemos exagerar e generalizar.
Muitas vezes a própria família se vê na contingência de internar o seu doente e defende o hospital porque não há uma rede de apoio para o tratamento sem exclusão.
A miséria também empurra milhares de pessoas para o manicômio porque não tem o que comer e onde morar por isso é comum encontrar indigentes e crianças abandonadas em hospitais psiquiátricos.
Diagnóstico: Fome. Injustiça social.
O manicômio é só um paliativo.
Nós queremos equipes mínimas nos postos de saúde com treinamento adequado para sair de trás de suas mesas e ir á escola fazer prevenção em parceria com o pessoal da cultura, dos esportes e do lazer.Que atue com idosos e desempregados, com donas de casa deprimidas, que planeje ações com a promoção social, a associação de moradores, os grupos de jovens das igrejas, os sindicatos, as forças atuantes da COMUNIDADE...
Nós queremos a criação de residências terapêuticas para os pacientes dos hospitais para que voltem a viver em nosso mundo; que sejam aceitos como “diferentes” com direitos, que possam trabalhar e sentir-se importantes para a sua comunidade...
Nós queremos a implantação de serviços de emergência psiquiátrica para que a pessoa com sofrimento mental agudo seja acolhida, ouvida e medicada por 72 horas em regime intensivo e não seja enviada para o manicômio. Sei que isto dá certo; é minha vivência no pronto-socorro, especialmente com suicidas. Uma boa escuta e acolhimento fazem milagres...Não é deixar dois psiquiatras (bons) de plantão no PS Central somente para avaliar se interna ou não...
Queremos CAPS e oficinas terapêuticas onde o paciente passe seu dia de forma prazeirosa e produtiva e não receba apenas drogas, drogas e drogas...Aliás, hoje o maior problema da saúde pública / saúde mental é o número assombroso de dependentes químicos de drogas legais, receitadas por profissionais que não tem preparo para lidar com o sofrimento mental.
Pressionados pelas péssimas condições de trabalho e sem tempo de ouvir (sem treinamento também), receitam Diazepan como água...Seria mais barato colocar na caixa dágua...
O doente acha que está se tratando (quando só está se viciando) e perde a raiva e a coragem para fazer as necessárias mudanças em sua vida.
Como diz meu amigo ginecologista Rodolfo Celeste, ás vezes a solução é mudar de marido, dando um basta ás causas da depressão.
Para isto é preciso ter coragem... e aí entra o psicólogo.
Se eu tivesse poder para implantar políticas públicas de saúde mental, faria isto: capacitar os médicos para lidar com o sofrimento sem reservas.
Também valorizaria os outros profissionais da saúde, melhorando salários, possibilitando capacitação, reduzindo carga horária, criando mecanismos de valorização do bom profissional através de um plano de carreira adequado...
Valorizaria os enfermeiros (e auxiliares de enfermagem), que é quem carrega a Saúde nas costas e tem contato direto com o paciente quando está em sofrimento.
Faria um trabalho de sensibilização com a população para romper com os mitos sobre a doença e o doente, esclarecendo sobre as possibilidades de tratamento sem exclusão.
O grupo “Loucos por Alegria” é um instrumento para alcançar estes objetivos.
Quando apresentamos as peças “Um dia no SUS...” e “Uma história do Brasil”, procuramos sensibilizar os participantes para estas questões, mostrando que é possível mudar as coisas. A isto nós chamamos de cidadania: deixar de ser paciente e intervir concretamente na definição das políticas públicas. Por isso já participamos do Conselho Gestor, Comissão de Saúde Mental, reuniões do Conselho de Saúde (são abertas a qualquer um) e onde mais for possível nos fazer ouvir.Vamos a escolas, empresas, encontros e eventos acadêmicos, reuniões do movimento da luta anti-manicomial, conferências, etc.
Para nós, resolve. Sentimos que não somos impotentes mas sujeitos da História.
Além disto, construímos no grupo relações de solidariedade e respeito. E amor.
Reconstruímos relações sociais esgarçadas pela falta de tempo, de dinheiro, de oportunidades, pela TV que aliena, pela solidão que mata...
Fazemos lazer/prazer estando simplesmente juntos: velhos, jovens e crianças, pretos e brancos, homossexuais e heterossexuais, estudados e gente simples, ricos e pobres num prenúncio vivido de uma sociedade mais justa.
Contamos piadas, rimos de nós mesmos, representamos nossos medos e preconceitos no teatro e nos divertimos muito com tudo isto.
Aparentemente, esta prática incomoda muita gente pois questiona a tecnoburocracia.
Trabalhamos com grupos fechados em respeito ao paciente e visando facilitar vinculos, mas ELES querem grupos abertos.
Oferecemos terapia individual, eles exigem somente trabalho em grupo.
Respeitamos o tempo de cada um, eles exigem tratamentos de 12 semanas (mas não cumprem com o que cobram).
Fazemos prevenção e atendimentos de urgência há mais de 10 anos e eles montam “treinamentos” para a rede somente com psiquiatras sem nem ao menos considerar a possibilidade de qualquer contribuição nossa.
Nossa equipe perdeu a saúde mental, basta ver nossos prontuários funcionais...
Isto é normal ?
Estado e municipio fizeram o acordo informal da municipalização da saúde mental sem considerar nossas dificuldades e impossibilidades. Recebemos toda esta demanda sem poder ao menos reclamar.
Hoje existe em Bauru uma rede cujo formato mostra a total inversão de políticas dos últimos anos pois nem 10% dos recursos humanos e materiais estão investidos na rede básica e emergência que é, em última instância, atribuição da Prefeitura.
Há quatro serviços secundários (os CAPScômios...) funcionando práticamente com os mesmos profissionais e atendendo a mesma demanda que sempre atendeu como NAPS.
A “vantagem” apontada é que agora a quantidade distribuída de Diazepan aumentou
Nem um centavo foi investido na rede básica e ainda perdemos as poucas conquistas que fizemos praticamente sozinhas.
Tudo que foi aprovado pelo povo nas Conferências não foi cumprido.
Trabalhamos com a qualidade e resolutividade, eles nos cobram a quantidade.
Lutamos para trabalhar em rede, eles nos excluem e desqualificam qualquer sugestão.
Herdamos pacientes que se arrastam do ASM para o NAPS atrás de receitas há 20 anos!!!!
Não é a toa que estes técnicos que vem definindo as políticas de saúde mental em Bauru nos últimos 20 anos defendam com tanto afinco a manutenção do hospital psiquiátrico...
Esta tem sido a realidade dos profissionais e usuários nos últimos anos....até que nossas esperanças renasceram.
Aprendemos na prática a planejar e executar ações cujo fim não é apenas o nosso prazer pessoal: é o outro
O OUTRO que é nosso espelho e nos lembra que somos gente com as mesmas necessidades, raça humana, só muda de endereço. O outro com quem nos importamos...
Se isto não é saúde mental então não sei o que é.
Pelo menos é a minha saúde mental...e a caravana passa!
O que motiva as pessoas a participar? Pergunte a elas...
ROSÂNGELA MARIA BARRENHA
PSICÓLOGA
,
quinta-feira, 13 de maio de 2010
ENCONTRO NACIONAL DO MOVIMENTO DA LUTA ANTI-MANICOMIAL
domingo, 9 de maio de 2010
PRA PENSAR...
PROFISSÃO DE FÉ
“- Doutora, por que é que ainda não inventaram Diazepan para a dor de viver?”
Meu trabalho é ouvir pessoas
Segredo a quatro paredes,
plantio a quatro mãos.
(às vezes pianíssimo, às vezes não )
Hipertensos e diabéticos,
Hipercinéticos, tratoristas,
Poetas, poliqueixosos,
Espíritas e fetichistas.
Ouço a mulher do tetraplégico,
Suicidas, balconistas,
o tímido, a depressiva, o viúvo,
Bêbados! Tristes equilibristas...
Ouço o que quero e o que não quero,
Como um espelho, reverbero,
Devolvo, levo a pensar.
(E anoto o CID na FAA )
Ouço todos os desesperados:
Maridos cansados, pedreiros drogados
Aqueles que não querem se separar,
Aqueles que não sabem dizer “não”,
Aqueles que se curam (mas não querem sarar...)
Na escuta, querem tradução.
(Procuram a arte de viver
que eu tão bem
finjo saber...)
Meu trabalho é uma escola
Lições de vida e sobrevida
Exemplos de navegar
-João ensina a beber sem ninguém saber,
-Maria, a fingir na hora de gozar.
Aprendo com o moribundo
Pior que a morte é o medo da morte
Pior que a morte é o medo do mundo
Pior que a morte é o medo de amar...
Aprendo a ser fada do bem
Bruxa e mãe, pai e irmão.
Aprendo a falar duro
Consolo, esconjuro,
- Espelho, salto no escuro
Limite, abraço, muro
Exercício de paixão.
E por mais que eu invente
Aprendi com o residente:
por mais que a ciência tente
não se descobriu a ciência
de sentir o que o outro sente.
Já disse a assistente social
da equipe mínima de saúde mental:
Sossegue, a vida é assim mesmo!
Cada um dá o que tem...
Meu trabalho é uma porta aberta:
Gentes e coisas que entram e saem,
sem pedir licença,
sem ter a decência
ao menos de se despedir.
Sibele vai embora. Rogério vai embora.
Sirenes, urgências,
Alguém “vai a óbito”,
Partos, comas, separação.
Quem não aguenta, que dê o fora!
A dentista cansou de esperar promoção.
Quem fica, pergunta(tomando café):
“- Como vai o caso da mocinha estuprada? ”
O caso vai. A moça vai. A dor fica.
Pronto-Socorro das Almas!
Morte e adeus são rotinas...
Como disse a pediatra:
“Quem gosta de Frank Sinatra
não deve fazer Medicina! ”
Às vezes, alguém volta
Amigo ou paciente de alta
presente e flores na mão.
Agradece, se despede.
Outros, não.
Fim de plantão. Cansada,
fecho a porta, aliviada:
Hoje não fui questionada
se sinto medo da solidão...
( e quem quiser que conte outra ! )
Rosângela Maria Barrenha
Bauru,SP- julho de 2000.
“- Doutora, por que é que ainda não inventaram Diazepan para a dor de viver?”
Meu trabalho é ouvir pessoas
Segredo a quatro paredes,
plantio a quatro mãos.
(às vezes pianíssimo, às vezes não )
Hipertensos e diabéticos,
Hipercinéticos, tratoristas,
Poetas, poliqueixosos,
Espíritas e fetichistas.
Ouço a mulher do tetraplégico,
Suicidas, balconistas,
o tímido, a depressiva, o viúvo,
Bêbados! Tristes equilibristas...
Ouço o que quero e o que não quero,
Como um espelho, reverbero,
Devolvo, levo a pensar.
(E anoto o CID na FAA )
Ouço todos os desesperados:
Maridos cansados, pedreiros drogados
Aqueles que não querem se separar,
Aqueles que não sabem dizer “não”,
Aqueles que se curam (mas não querem sarar...)
Na escuta, querem tradução.
(Procuram a arte de viver
que eu tão bem
finjo saber...)
Meu trabalho é uma escola
Lições de vida e sobrevida
Exemplos de navegar
-João ensina a beber sem ninguém saber,
-Maria, a fingir na hora de gozar.
Aprendo com o moribundo
Pior que a morte é o medo da morte
Pior que a morte é o medo do mundo
Pior que a morte é o medo de amar...
Aprendo a ser fada do bem
Bruxa e mãe, pai e irmão.
Aprendo a falar duro
Consolo, esconjuro,
- Espelho, salto no escuro
Limite, abraço, muro
Exercício de paixão.
E por mais que eu invente
Aprendi com o residente:
por mais que a ciência tente
não se descobriu a ciência
de sentir o que o outro sente.
Já disse a assistente social
da equipe mínima de saúde mental:
Sossegue, a vida é assim mesmo!
Cada um dá o que tem...
Meu trabalho é uma porta aberta:
Gentes e coisas que entram e saem,
sem pedir licença,
sem ter a decência
ao menos de se despedir.
Sibele vai embora. Rogério vai embora.
Sirenes, urgências,
Alguém “vai a óbito”,
Partos, comas, separação.
Quem não aguenta, que dê o fora!
A dentista cansou de esperar promoção.
Quem fica, pergunta(tomando café):
“- Como vai o caso da mocinha estuprada? ”
O caso vai. A moça vai. A dor fica.
Pronto-Socorro das Almas!
Morte e adeus são rotinas...
Como disse a pediatra:
“Quem gosta de Frank Sinatra
não deve fazer Medicina! ”
Às vezes, alguém volta
Amigo ou paciente de alta
presente e flores na mão.
Agradece, se despede.
Outros, não.
Fim de plantão. Cansada,
fecho a porta, aliviada:
Hoje não fui questionada
se sinto medo da solidão...
( e quem quiser que conte outra ! )
Rosângela Maria Barrenha
Bauru,SP- julho de 2000.
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